Determinismo e livre-arbítrio

John Wayne Gacy (1942 – 1994), também conhecido como “o palhaço assassino”, foi um serial killer americano condenado e executado pelo estupro e assassinato de 33 meninos e rapazes entre 1972 e sua prisão em 1978.

Como sabemos, John foi fruto da relação sexual entre um homem e uma mulher. Imaginemos, no entanto, que no dia dessa relação, após o encontro do espermatozóide e óvulo do casal, a vida que passou a se formar no útero da mulher foi a princípio sua, ao invés da de John. Note que ainda assim, o espermatozóide e o óvulo são os mesmos que deram origem a John, portanto, o material genético também será o mesmo. Os pais de John (que agora é “você”) continuariam vivendo a vida normal deles, ou seja, A mesma que eles viveram sendo pais do John de verdade. Desta forma, todas as ações deles seriam exatamente iguais, e o feto teria rigorosamente a mesma exposição a radiações, acesso a exatamente os mesmos nutrientes, TODAS as condições de gestação RIGOROSAMENTE IGUAIS. Como consequência disso, você terá exatamente a mesma formação do John de verdade e nascerá no mesmo dia, mesmo segundo, mesmo instante em que John, terá cara de John, cérebro de John, tudo de John. Sem motivos para alterar o curso de suas vidas, seus pais te criariam da mesma maneira que John, na mesma cidade, com os mesmos vizinhos, te colocariam na mesma escola, etc.

Nessas condições, você acha que algum dia mataria alguém?

Minha resposta: Sim.

Afinal perguntar isso é como se fosse perguntar “Se John tivesse vivido toda a sua vida exatamente da mesma forma e na mesma época que ele viveu até momentos antes de seu primeiro assassinato, ele mataria alguém?”. Isso aconteceu, e ele matou. Por que razão ele deixaria de matar? Nenhuma. Todas as “razões” que ele tinha para fazer qualquer coisa eram as mesmas, portanto ele faria exatamente a mesma coisa.

Claro que estou analisando a situação de uma perspectiva materialista/monista. Quando digo que “a vida que passou a se formar no útero da mulher foi a princípio sua“, isso fica aberto a interpretação. Quando eu falo que o material genético e as experiências de vida são iguais, para um materialista perde-se a distinção entre a “sua vida” e a “de John”. Isso pode parecer um dado confuso na formulação da pergunta e, de fato, não fica muito claro. Mas foi uma “vagueza” que preferi manter pois acho interessante que o leitor faça sua própria interpretação. É surpreendente o quanto pessoas a princípio não-materialistas acabam interpretando da mesma forma que as materialistas. É uma das várias situações que mostram que pessoas religiosas podem ser absolutamente racionais desde não percebam que o assunto envolve questões de fé.

Se as ações de uma pessoa são conseqüência apenas de características sobre as quais a pessoa não teve influência, então não existe livre arbítrio. Ninguém escolhe os pais, nem suas condições de gestação, nem a criação. No instante que uma pessoa nasce todas as suas atitudes serão conseqüência dessas condições iniciais e posteriormente das atitudes anteriores. Pensando assim, tudo está pré-determinado. Suas ações vão se basear em coisas que você não controla. Supondo que você tenha um filho, ele será conseqüência dessa cadeia de fatos, assim como o filho dele será (e você também é), e assim por diante.

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