Teletransporte e consciência

Imagine que saia no noticiário que cientistas conseguiram inventar uma máquina de teletransporte. Eles explicam que ela funciona assim: Você entra em uma máquina que “escaneia” seu corpo, por dentro e por fora, armazenando todos os dados que te definem, como altura, peso, número de fios de cabelo, configuração das sinapses no seu cérebro, todo último detalhe sobre sua estrutura física. Essa máquina então envia os dados para outra máquina em qualquer parte do mundo e te desintegra. A máquina que recebe seus dados do outro lado do mundo é alimentada com material orgânico e então lê os dados e te recria fielmente, com exatamente o mesmo tamanho, peso, configurações nervosas, etc. A máquina é testada com animais e finalmente com seres humanos, tendo resultados bem sucedidos. Pessoas entram na máquina e saem do outro lado com exatamente a mesma aparência física, mesma personalidade, mesmas memórias e mesma saúde. Centenas, milhares de pessoas entram na máquina e nunca nada dá errado. É a forma de viagem mais segura (considerando as estatísticas, ao entrar num avião ou carro por exemplo há uma probabilidade maior do que 0% de nunca chegar ao seu destino). Essa máquina, porém, nunca deu erro. Você entraria nela?

Eu não. Se você respondeu que sim, imagine que da vez que você entrou houve um pequeno erro: Você foi recriado(a) do outro lado com sucesso, saiu com a mesma aparência/personalidade/saúde/etc. Porém na máquina de origem houve um problema e você não foi desintegrado. E aí? O que acontece com a sua consciência? Fica no original? No novo? Em lugar nenhum? Nos dois? Se considerarmos que fica nos dois estaríamos assumindo que existe algo imaterial conectando os dois corpos, então descarto essa possibilidade. Pela descrição do “experimento mental”, também não faz sentido pensar que ela ficaria “em lugar nenhum”, afinal a máquina deu certo várias vezes e seu corpo foi recriado com uma consciência. Se considerarmos que o escaneamento não te mata, e que a máquina não te desintegrou, então você permaneceu acordado(a) o tempo inteiro, e não faz sentido assumir que você perderia a consciência. Ou seja, basicamente a máquina te copiou. Fez um clone já adulto, com as mesmas memórias que você. Um novo indivíduo é criado achando que tudo deu certo e que foi teletransportado, e o original fica achando que o teletransporte falhou. Se os operadores da máquina vissem o erro e te falassem: Opa, deu um erro! Você não foi desintegrado(a). Mas não se preocupe! Você já foi recriado(a) do outro lado e está bem, por favor entre na máquina que te desintegramos e fica tudo certo”. Você entraria? Creio que não. Mas então, tem certeza que você entraria da primeira vez? Não é a mesma coisa que estaria acontecendo? Uma cópia sua seria criada e você seria simplesmente morto.

Feitas essas considerações, imagine agora que inventassem uma máquina que não usa outro material, mas transfere seus átomos por um cabo de alguma maneira para o outro lado e te reconstrói usando os mesmos átomos que te compunham anteriormente. Imagine porém que o átomo do seu pé pode parar na cabeça e vice-versa, mas ainda assim a sua estrutura física continua inalterada, e as pessoas que entram saem com as mesmas memórias/personlidade etc. Você entraria? Eu não sei. Parando para pensar, qual é a diferença desse caso para o anterior? O que garante que aquele seria realmente “eu” com a minha mesma consciência, e não apenas uma consciência recriada fielmente? Vamos imaginar então que ela funciona de forma mais segura: Os átomos do pé vão para o pé e os da cabeça para a cabeça para exatamente a mesma posição, recriando exatamente a mesma configuração anterior. Agora é mais seguro entrar? Eu não teria segurança. Será que o risco realmente diminui? Por que diminuiria? O que é nossa consciência afinal? Se ela for interrompida corremos o risco de nunca tê-la de volta? Eu só entraria em uma máquina de teletransporte em que eu pudesse estar consciente durante todo o processo. Uma máquina que funcionasse mais como um “portal” do que como uma máquina de recriação. Mas pensando bem, será que perder a consciência é algo tão “perigoso”? Afinal toda vez que dormimos perdemos a consciência. Como ter certeza de que ela é “recriada” a cada manhã? Que diferença faria se fosse? Basicamente diferença nenhuma. No final das contas “consciência” parece um conceito tão sutil, tão vago. Parece mais um artifício linguístico, quase como algo que na verdade não existe objetivamente. Bem, não sei mais aonde quero chegar com tudo isso então novamente deixo a questão em aberto.