Educação política, ciência e participação cívica

Protesto com mais de 30 mil pessoas na Avenida Paulista

É um momento interessante da história brasileira. Sinto que eu e muitos estamos aprendendo várias coisas. Eu, por exemplo, me sinto um imbecil agora que vejo essa onda de posts pró-PEC-37 e percebo que não tenho argumento algum contra ou a favor e que simplesmente fui na onda da galera ao ser contra. Quando minha namorada, que é estrangeira, me perguntou sobre a PEC 37, eu tive a consciência de dizer que não sabia com detalhes, mas que dei um voto de confiança a algumas pessoas e me posicionei contra. Eu disse inclusive que, se eu for cobrar de mim mesmo um nível de conhecimento de um doutor em ciências políticas, nunca vou poder me envolver ou opinar em nada. Ela até brincou – você falando isso?? – porque na maioria das vezes eu evito falar antes de me informar bem a respeito. Talvez por isso eu sempre tenha me sentido mais confortável falando de ciência e das partes mais “pé-no-chão” da filosofia (lógica, epistemologia, etc). Esse cuidado em se posicionar por um lado é bom, mas por outro é preocupante. Afinal, se todos nos cobrarmos todo esse conhecimento, quando o povo vai se mobilizar como está se mobilizando agora? Nunca.

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Qual é a solução, então? Eu fico me perguntando. Bom, solução eu não faço idéia, mas acho que uma coisa que teria um grande impacto positivo, e que na minha cabeça é óbvia, seria uma reforma no currículo do ensino básico que o fizesse abordar com mais profundidade a ciência política. Tudo bem que eu nunca fui um dos “alunos interessados” na aula de história e geografia, mas eu me lembro de várias coisas, e nenhuma delas tem a ver com política exceto nomes de presidentes e outras informações vazias que hoje não me fazem muita diferença. Será que eu sou um caso muito particular? Eu já experimentei perguntar a outras pessoas e muitas não sabiam, por exemplo, a diferença entre um senador e um deputado. Eu mesmo, até hoje, depois de ler a respeito, não entendi com tantos detalhes. Tentei descobrir um livro sobre a estrutura política brasileira para leigos e até achei um, mas está esgotado em todos os sites de livrarias, na editora, e não se encontra pra vender em lugar nenhum. Peguei na biblioteca e comecei a ler mas tive que parar quando o período letivo foi tomando meu tempo. Procurei uma matéria de introdução a política brasileira no departamento de ciências sociais da PUC mas não tinha. Tive que marcar de conversar com o coordenador para explicar minha curiosidade e ele me sugerir algumas opções de disciplinas que se enquadravam mais ou menos no que eu queria. É algo tão específico, complexo e incomum o que eu quero? Incrivelmente, parece que sim.

Colocado este ponto, gostaria também de levantar outras questões que me deixam intrigado e sem respostas. Acho que a maioria vem desse questionamento: como uma discussão política pode ser conclusiva? Popper já dizia:

“Sempre que uma declaração científica trata da realidade, ela deve ser falsificável; e sempre que não é falsificável, ela não fala sobre a realidade.”

De fato, quando se fala sobre ciência isso é bastante claro. Afinal, se não há nenhuma observação imaginável que possa desmentir uma teoria, que valor ela tem? Ela acaba sendo como uma religião, que conforme novas descobertas acontecem, se adapta para acomodá-las sem nunca se desmentir. Mas então será que política é como uma religião? E se for, o que seria o equivalente à não-religiosidade/ ateísmo? Anarquia?

A diferença principal entre religião e política é que a religião é algo mais pessoal, e portanto dispensável na esfera pública. Mas política é necessária por motivos práticos. As pessoas precisam se organizar, e seres humanos (infelizmente) não são como formigas ou abelhas, precisam de uma liderança. Mas que sistema escolher? Que decisões tomar? Como podemos saber? A única forma eficiente que a humanidade encontrou de adquirir conhecimento até hoje é a ciência. Mas é difícil ter uma abordagem científica com a política. Ela trata de assuntos muito complexos de forma que fica praticamente impossível aplicar um reducionismo científico. O ceteris paribus tão usado pela ciência não funciona na política, porque o sistema em questão é sempre extremamente sensível a condições externas. Ao meu ver o único caminho válido seria aplicar a teoria do caos à ciência política, mas até onde eu sei essa abordagem não é nada comum e se existir ainda está engatinhando. De qualquer forma isso não ajuda as pessoas a participarem de debates políticos. Na verdade até atrapalha. Não basta ter um diploma em ciência política, se mesmo os grandes teóricos tão comumente discordam ferozmente entre si. Agora você ainda precisa de um diploma em matemática e teoria do caos.

Mas então será que é melhor as pessoas simplesmente se calarem? Alguns parecem pensar assim. Eu não consigo. Entendo que seja chato ouvir gente falar besteira (como eu mesmo certamente falo), mas nada vem de graça. Eu particularmente prefiro uma sociedade civicamente ativa, ainda que isso implique uma quantidade de afirmações incorretas/ignorantes, do que uma passiva onde ninguém toca em assuntos relacionados a política. Como sempre, o importante é sempre ser crítico, e eu diria também que é importante ser sempre flexível, evitando o dogmatismo. Afinal é impossível provar quem está certo. Além disso, por ser um grande entusiasta das ciências naturais e ter seguido uma área de estudo mais voltada para isso, tento sempre me manter empírico, sem querer inovar demais. Comunismo? Da forma rígida como foi implementado não teve bons resultados em nenhum lugar do mundo. Liberalismo total? Os EUA se aproximam disso e têm uma série de problemas que países Escandinavos resolvem com políticas socialistas. Claro que cada local tem suas peculiaridades (novamente: sistema complexo e caótico), mas o que mais eu posso fazer se quiser dar uma opinião com alguma base? Além é claro de procurar correr atrás da educação política que eu não tive, como pretendo fazer?

Fico aberto a sugestões, fiquem a vontade para comentar.

2 Replies to “Educação política, ciência e participação cívica”

  1. Considerando o exemplo concreto de uma PEC, que é uma emenda à Constituição, parto do princípio de que, se não há um motivo contundente e claramente apresentado para eu ser a favor, então eu sou contra mesmo sem entender direito do que se trata. Não importa o que as polícias e mais quem quer que seja sejam a favor e a mídia manipulativa seja contra. O pior que pode acontecer é a coisa ficar como já está, e a questão sempre pode continuar a ser discutida e clarificada ao se adiarem votações etc, o que fatalmente não ocorreria se a proposta fosse prontamente aprovada.

    1. É, faz sentido. Talvez a imagem que eu usei de exemplo não tenha sido boa. Eu simplesmente procurei qualquer coisa no google imagens hehe. De fato esse argumentos conspiratórios sozinhos geralmente não me convencem de muita coisa, mas a questão é que bastou qualquer questionamento para colocar em dúvida minha posição, porque afinal antes eu não tinha muito motivo para ser contra, só minha confiança nas pessoas do meu meio e no que eu ouvia falar de “PEC da impunidade”.

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