Orgulho de ser homem, branco e hétero

waspMuitos reclamam que negros podem falar que “têm orgulho de serem negros” mas que os brancos não podem. Que uma banda chamada “Cidade Negra” cheia de negros é legal mas uma chamada “Cidade Branca” cheia de branquelos é racista. Ou que uma parada do orgulho gay é aceitável mas uma parada do “orgulho hétero” não é. Que a mídia se volta para as mulheres no dia delas e algumas ainda ganham flores e chocolate, mas que ninguém se lembra dos homens no dia deles. Realmente, eu diria que é verdade. No entanto as pessoas costumam criticar isso como sendo algo ilógico e hipócrita, um “double-standard” injusto. Será que é mesmo? Vamos pensar juntos. Quando esses movimentos começaram? Por que essas minorias passaram a ter essa atitude em primeiro lugar?

Negros

Os negros foram escravizados por brancos europeus e seus descendentes nas Américas do século XVI ao XVIII. Acho que não preciso lembrar das aulas de história e filmes sobre a era colonial, mas os escravos não tinham direitos civis, eram penalizados com chibatadas e tortura sempre que seus donos achassem conveniente e viviam em condições desumanas comparadas às dos senhores brancos.

Escravo sendo açoitado no Brasil colonial

Mesmo após o fim da escravidão houve forte segregação social e, até hoje, embora tenha melhorado, não foi 100% eliminada. Para reforçar e ilustrar o que eu estou falando, um artigo interessante é o Timeline of the African-American Civil Rights Movement. Alguns pontos interessantes incluem o fato de que a segregação racial de jure (oficial, permitida por lei) nos EUA só foi completamente erradicada a nível nacional com a Lei dos direitos civis de 1964. Antes disso a segregação racial não só era permitida, mas por vezes oficial, como determinavam por exemplo as leis Jim Crow. Eu sei que já escrevi a data mas vou ter que repetir: Mil novecentos e SESSENTA E QUATRO. Isso foi ONTEM. E tem mais: mais cedo no mesmo ano três ativistas associados ao CORE (Congress of Racial Equality) foram assassinados por linchamento pelos “White Knights of the Ku Klux Klan“. Só pra dar uma idéia do contexto e do quão “aceitas” essas mudanças foram.

Quanto ao Brasil, ao que tudo indica, desde o fim da escravidão não houve mais discriminação de jure explícita contra os negros. Isso não quer dizer que os negros tivessem um status parecido com o dos brancos. Do site do Tribunal Superior Eleitoral:

Com a proximidade da abolição da escravização de pessoas, em 1881, uma reforma eleitoral no Império, conhecida como Lei Saraiva, aboliu o voto do analfabeto. Muitos historiadores fazem uma conexão entre a Lei Saraiva e a abolição, tendo em vista que a grande massa de negros egressos do cativeiro era de analfabetos, que estariam, assim, excluídos do processo eleitoral.

A historiadora do Museu do TSE afirma ainda que, a partir da abolição, em 1888, os negros passaram a poder, formalmente, participar do processo eleitoral, o que, na prática, não se efetivou em razão, por um lado, da proibição do voto do analfabeto e, por outro, em decorrência do conjunto de estigmas (minha ênfase, guardem essa palavra) construídos em torno da identidade negra. Tais estigmas foram elaborados a partir de teorias cientificistas que enunciavam a inferioridade de determinadas raças frente a outras, a propensão natural de determinados grupos para o crime, a vinculação de determinadas doenças/epidemias a alguns grupos étnicos, entre outros…

Hoje em dia, isso ainda não foi resolvido. Uma tabela tirada da wikipedia que ilustra muito bem o status do negro na sociedade brasileira é essa:

Indicadores Brasileiro branco Brasileiro negro
Analfabetismo7 5,9% 13,3%
Nível universitário8 15,0% 4,7%
Expectativa de vida9 73,13 67,03
Desemprego10 5,7% 7,1%
PIB per capita11 R$ 22,699 R$ 15,068
Mortes por homicídios12 29,24% 64,09%

Mas não foram só os negros que foram subjugados e tratados como inferiores ao longo da história a ponto de ter um estigma negativo impregnado neles até hoje.

Mulheres

Ah, mulheres não têm do que reclamar. Já conseguiram todos os direitos que queriam, têm o mesmo status que os homens. As feministas hoje em dia são apenas um bando de gordinhas mal comidas que se revoltam por não conseguirem atingir o tão incrível e nobre padrão que os homens estipularam e aí ficam reclamando sobre coisas sem sentido“. É. Tem gente que pensa assim. Não acredita? Eles falam brincando mas no fundo não pensam isso? Pasme:

De fato houve muito progresso nos últimos dois séculos. As mulheres conseguiram até o direito de voto! Acreditam?? Pela primeira vez na Nova Zelândia, em 1893. No Brasil foi só em 1932. No Brasil e no mundo ocidental de forma geral conseguiram ainda mais direitos. O direito a propriedade, o de maternidade voluntária (contracepção) e direitos trabalhistas sem discriminação de jure. Tá bom, né? Quem se importa com discriminação de facto afinal, ou com mulheres no resto do mundo? Quem liga se os salários das mulheres são de facto mais baixos que os dos homens? Quem liga se nos Emirados Árabes o homem tem seu direito de bater em sua mulher é garantido por lei, desde que não deixe marcas? Tudo bem né, Emirados Árabes, quem se importa, fica muito longe. OK, a ONU, depois de anos de luta e da fusão de diversas entidades voltadas para questões femininas criou a “ONU Mulheres“. Mas quem ainda leva a ONU a sério? Todo mundo sabe que eles são uma organização sem relevância coordenada por gordinhas frustradas de TPM.

OK, a voltando à seriedade:

Violência contra a mulher

  • Em 1999 nos Estados Unidos, 1218 mulheres e 424 homens foram mortos por seus parceiros. Os números em 2005 foram 1181 e 329, respectivamente. Na Inglaterra e no País de Gales cerca de 100 mulheres são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros a cada ano, enquanto o número de homens a ter o mesmo destino em 2010 foi 21. O assunto é mais desenvolvido na Wikipedia, onde também estão as citações dessas estatísticas.
  • A natureza não foi muito piedosa com as fêmeas humanas. As fez menores, com menos massa muscular, e deu a elas uma vagina enquanto que ao homem um pênis que fica rígido. Ou seja, presenteou o homem com o poder do estupro. E o que o homem faz? Estupra. Só na guerra da Bósnia foram cerca de 35 mil, num episódio assustador da história humana que é lembrado como “estupro em massa”. E o que as autoridades fazem com relação a isso? Os países desenvolvidos protegem as mulheres. Já em outros países, como a Malásia, o estuprador pode por exemplo se safar se casando com a vítima. Mesmo em alguns países ocidentais em desenvolvimento, como o Chile, uma mulher não pode abortar nem se tiver sido vítima de estupro.

Estou citando estatísticas diferentes para cada “minoria”, mas muitas valem para mais de uma. A que vem a seguir é um exemplo:

Discriminação no trabalho

pay-gap
Diferença de salários entre homens e mulheres de diversos grupos nos EUA

Ou seja, após toda uma história de ausência feminina em posições de poder, acadêmicas, ou qualquer meio intelectual ou de negócios, é evidente que há um estigma (olha a palavra aqui de novo!) associado às mulheres, que as mantém em uma posição inferior na sociedade. Isso se reflete nos salários e contratações desiguais não só no mercado mas em meios acadêmicos, onde poderia se esperar que as pessoas fossem mais “iluminadas”. Um experimento em Yale pegou aplicações de estudantes para a posição de administradores de laboratórios científicos e as distribuiu para professores pesquisadores. Metade dos professores recebeu aplicações com nomes de homem, e a outra metade recebeu as mesmas aplicações com nomes de mulher. Os resultados mostraram que as “candidatas” tiveram classificações significativamente inferiores em competência, contratabilidade, e na predisposição dos pesquisadores em serem seus orientadores.

Esse estigma também pode ser visto na representação da mulher na mídia, que a reduz a sua dimensão sexual e muitas vezes a inclui somente como objeto de desejo em exibições voltadas a um público essencialmente masculino.

Mulheres protestam contra o sexismo na mídia em Londres

OK, até que os homens brancos foram meio injustos com mulheres e negros ao longo da história e se posicionaram na sociedade de tal maneira que até hoje possuem um status superior simplesmente por terem nascido com pele branca e um pênis. Mas será que para por aí?

Gays

Outro dia vi um documentário interessante: Britain’s Greatest Codebreaker, sobre a vida de Alan Turing, um grande matemático inglês responsável por trabalhos que vieram a se tornar os fundamentos da ciência da computação. Ele teve uma vida acadêmica bastante produtiva, era homem, branco, tinha tudo a seu favor, até que um dia ele foi roubado por um jovem com quem ele tinha dormido. Ele ingenuamente foi à polícia registrar queixa mas acabou sendo acusado de “comportamento indecente” (gross indecency) por seus atos homossexuais e foi forçado a escolher entre prisão e castração hormonal. Turing optou pela castração e passou a viver sob constante observação policial, sofrendo os efeitos adversos do tratamento agressivo com hormônios femininos até que se suicidou em 1954.

Ver a dramatização da vida de uma grande mente sendo humilhada e desprezada pelo próprio país logo após ter colaborado na guerra decodificando mensagens de navios alemães simplesmente por causa de uma opção pessoal, colocada em prática em um ambiente totalmente privado e consensual, é algo que me chama particularmente a atenção, pois tem um apelo emocional. Mas essa lei valia para todos os cidadãos. Muitas vidas foram degradadas por causa dela. E o mais incrível? Ela foi resultado de centenas de anos de modernização e evolução dos direitos civis. Na própria Inglaterra, um ato de 1533 definia pena de morte para “comportamentos imorais” como a homossexualidade.

E a situação hoje em dia? Homossexualidade ilegal em mais de 70 países. A punição chega a pena de morte em 9 países, prisão em mais de 40, nos outros as penas ficam em multas, deportação e trabalho forçado, e nos outros países onde ser gay é permitido eles só tomam porrada de skinhead e são vítimas de discurso de ódio (hate speech).

A Westboro Baptist Church ficou conhecida por seus protestos em funerais de gays mortos por motivação homofóbica e outras minorias que eles alegam ser “odiadas por Deus” com base em trechos bíblicos.

E tomam porrada mesmo. De acordo com a ONG “Grupo Gay da Bahia”, houve 3196 casos de homicídio de homossexuais registrados durante os 30 anos entre 1980 e 2009 no Brasil. Eles também relataram 190 assassinatos que alega-se ter motivação homofóbica em 2008, o que representa 0.5% dos homicícios intencionais no país. 64% das vítimas eram homens gays, 32% travestis, e 4% lésbicas. Há quem critique os dados da ONG, porque eles não distinguem claramente crimes simplesmente contra gays de crimes com motivação homofóbica. Em todo caso basta estar minimamente em dia com o noticiário para reconhecer que existe um problema, e que ele é grave o suficiente para merecer atenção. E na maioria dos países desenvolvidos ele recebe atenção. No Canadá, em vários estados dos EUA, e em vários países europeus, crimes com motivação homofóbica são considerados “crimes de ódio” (hate crimes) e tem sua pena agravada. Os gays também são explicitamente protegidos da discriminação no trabalho.

A constituição brasileira tem como objetivo fundamental promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Há várias leis contra os preconceitos explicitados nesse fundamento, e o assassinato motivado por eles é tratado como homicídio qualificado. Diferente dos países que eu citei, porém, nenhuma lei nacional menciona explicitamente discriminação com base em orientação sexual. O projeto de lei 122 incluiria essa categoria explicitamente na lista de preconceitos criminalizados, mas ainda está tramitando é veementemente atacado pelo lobby evangélico entre outros.

Orgulho

Pode parecer uma coisa sutil e abstrata, mas “estigma” e “status” são fatores de extrema importância na sociedade, como mostram as estatísticas e experimentos sobre discriminação acadêmica e no trabalho aqui compiladas. E é tão forte que até pessoas bem intencionadas por vezes tiram conclusões baseadas em preconceitos já firmados na sociedade.

A verdade é triste, e quem mora no Rio de Janeiro, por exemplo, sabe. Se você estiver andando sozinho à noite em uma rua pouco movimentada, e na calçada vindo à sua direção vir um grupo em que todas as pessoas são negras bem escuras, é bem possível que você fique com medo (dependendo é claro da aparência, roupas, etc). É uma questão em parte estatística (negros de fato cometem mais crimes no Brasil), mas que também mostra o estigma associado aos negros. Se eu fosse negro, eu seria forçado a aceitar, a entender. Porque é inevitável. Não é culpa ou racismo da parte dos não-negros que ficam com medo. Mas não deixaria de ficar chateado, talvez até com vergonha. Chateado com o fato de que minha raça pode inspirar medo. Triste de saber que esse estigma está preso a mim por questões históricas, ainda que eu não ofereça nenhum perigo. Tão triste que eu iria pensar em como eu queria que as coisas mudassem. Tão triste que talvez eu passasse a questionar esse estigma e a tentar quebrá-lo de alguma forma. Talvez associando a imagem do negro a coisas positivas. Talvez lembrando as pessoas de que existem negros que realizaram grandes conquistas. Talvez chamando atenção para todos os negros de que muito do que os negros criaram são coisas valiosas, e que não são motivo de vergonha, e sim de orgulho.

Se nos mantivermos muito atentos a todo esse contexto, a palavra orgulho até faz algum sentido. Ela se opõe a vergonha. Mas é uma palavra terrível. Infelizmente acabou sendo adotada no lema de praticamente todos os movimentos que lutam contra a discriminação e pela aceitação social de minorias, provavelmente por facilitar o marketing e pela ausência de uma palavra melhor. Mas é uma palavra perigosa.

O que significa orgulho? A definição do dicionário me parece meio vaga. Em todo caso podemos dizer que é um sentimento positivo para aquele que o sente. Normalmente temos orgulho de nós mesmos (como indivíduos) ou de outros (amigos, familiares, etc). E isso para mim faz sentido. Eu luto e me esforço para atingir meus objetivos, e presumo que meus amigos e familiares façam o mesmo. É claro que, se você for rigoroso o suficiente, pode-se argumentar que nada é razão de orgulho pois as condições que possibilitam suas conquistas não são seu mérito (ver mais no post sobre livre-arbítrio). Mas para todos os efeitos práticos, se alguém ganhar uma grande herança, na loteria, ou um bom emprego oferecido por algum familiar, eu a princípio não me orgulho deles. Posso ficar feliz, mas não me orgulho. Já se vir alguém se esforçar e conseguir algo, ou mesmo se essa pessoa tiver um talento inato, eu então sentiria orgulho dessa pessoa. Assim como sentiria de mim mesmo.

Já o orgulho coletivo é um conceito mais perigoso. Se algum negro se destacar por alguma grande descoberta científica, faz sentido outro negro se orgulhar de sua raça por isso? Se um branco escreve um livro aclamado pela crítica, faz sentido alguém ter orgulho de ser branco? Essas conquista não parecem ter nada a ver com a raça. E mesmo que tivessem, que mérito alguém deveria ter simplesmente por nascer com uma certa cor, sexo, orientação sexual, nacionalidade ou o que quer que seja? É uma simples questão de sorte, e não de esforço. Não é razão para orgulho.

O orgulho nacionalista também me parece um desses orgulhos sem sentido, mas como no Brasil essa questão não é muito relevante achei desnecessário um destaque muito enfático. Se eu fosse alemão ou americano o título do texto provavelmente teria sido diferente. Uma vez estava discutindo com uma sueca se ela tinha orgulho de ser sueca. A Suécia é um país desenvolvido em vários sentidos, então faz sentido que muitos suecos se sintam bem por serem suecos. É uma questão delicada, porém, demonstrar orgulho nacionalista nos países ricos da Europa (onde há tantos problemas de racismo com imigrantes, etc). No final concluímos que faz mais sentido dizer que “me orgulho da Suécia” do que “me orgulho de ser Sueco”. Afinal, pode-se dizer que a Suécia, como nação, através de políticas bem sucedidas, conseguiu grandes conquistas. Mas ser sueco é uma questão unicamente de sorte. Um sueco que nunca se envolveu com política nem teve nenhum papel de destaque nas conquistas do país não tem motivo nenhum para sentir orgulho de si mesmo simplesmente por ter nascido com essa nacionalidade.

Talvez o “orgulho negro” também possa ser interpretado dessa forma. Como “tenho orgulho dos negros”ao invés de “tenho orgulho de ser negro”. Seria assim um slogan de reconhecimento do mérito de pessoas desse grupo. O mesmo vale para o “orgulho gay” ou “orgulho feminino” (se é que esse slogan existe). Sob essa ótica, até homens brancos hétero simpatizantes podem fazer parte do movimento, pois certamente muitas grandes mulheres, negros e gays dão a todos motivo para orgulho.

Conclusão

Quer a palavra orgulho seja boa ou não, é de fundamental importância que nos mantenhamos atentos ao contexto. Os negros, mulheres e gays sofreram uma série de violências na história que degradaram sua imagem e até hoje sofrem consequências e têm um status inferior na sociedade. A manifestação de orgulho é claramente uma forma de tentar levantar uma moral fragilizada por séculos de opressão.

Já manifestações de orgulho masculino, branco ou heterossexual, transmitem uma imagem negativa, de legitimação e defesa de suas posições superiores na hierarquia social. As mulheres negras homossexuais querem ter uma imagem tão boa quanto a dos homens brancos hétero. E os homens brancos hétero? Querem o quê?

One Reply to “Orgulho de ser homem, branco e hétero”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *