Radicalismo liberal sex-positive e seus perigos para o feminismo

Já há bastante tempo me identifico com o termo “liberal”. Principalmente no que diz respeito a liberdades individuais (o sentido econômico da palavra foge do escopo deste texto). Apóio o direito dos gays, o direito ao aborto, e tendo a me opor ao conservadorismo na maioria dessas questões polêmicas. Logo que comecei a me interessar por questões feministas, passei a me identificar também com o termo e com as pessoas que declaram pertencer ao grupo. Conforme fui me aprofundando nesses temas, porém, fui notando uma série de contradições e discordâncias entre membros desses grupos. Na verdade, chego às vezes a pensar que eu talvez seja uma minoria dentro deles, principalmente no Brasil.

Como é de se esperar, eu não fui o primeiro a notar essas desavenças, embora não tenha encontrado na internet muita literatura focando no tema. A subdivisão do grupo feminista já foi documentada, e um desses grupos já recebeu um nome, pelo menos em inglês: sex-positive feminism (algo como “feminismo sexualmente positivo”). Para começar, eu diria que foi um marketing meio desonesto a adoção desse termo para se auto-descrever. É como o termo “pro-life” (pró-vida), que acaba implicitamente acusando os rivais de “anti-life” (anti-vida). Não acredito que o grupo alternativo seja “sex-negative“. No contexto do aborto, o grupo oposto se defendeu e adotou o termo “pro-choice” (pró-escolha). No contexto do feminismo, parece ainda não ter havido coesão suficiente entre os membros do grupo oposto para a adoção de um título próprio (fica proposto aqui o desafio). Talvez “anti-objectification” seja um bom nome, mas por enquanto usarei aqui feminismo “sex-moderate” (sexualmente moderado). No que diz respeito ao termo mais genérico “liberal”, não encontrei nenhuma distinção entre os grupos que eu vou identificar aqui como “radical” e “moderado”.

Importante: Muitos desavisados criticam a pluraridade de opiniões dentro dos grupos como sendo uma prova de grande incoerência e irracionalidade. Conflitos de opiniões dentro do feminismo não invalidam de forma alguma o movimento como um todo. Contradição seria se as feministas fossem um grupo de opiniões homogêneas e ainda assim apresentassem, a nível individual, argumentos opostos. Este, na maioria das vezes, não é o caso.

Quem são as sex-positive feminists afinal?

Esse movimento é associado à terceira onda do feminismo, que veio nos anos 90 como uma reação a alguns preceitos comuns no feminismo da época. O atrito gerado por essas visões antagônicas dentro do grupo culminou com o que ficou conhecido como “Feminist Sex Wars” (Guerras Feministas do Sexo). Muitas feministas “tradicionais” tinham visões negativas da pornografia e de algumas práticas sexuais pouco ortodoxas como o sadomasoquismo (submissão ao homem, etc). Elas foram atacadas por uma nova onde de feministas que pregava, em primeiro lugar, a liberação sexual da mulher e o não julgamento de suas escolhas.

De fato, a luta dentro da temática hoje denominada sex-positive teve muitas conquistas. Na lei brasileira, até 2001, um casamento podia ser anulado se o homem descobrisse que a mulher não era virgem (DOIS MIL E UM!!!!!!!). Essa lei não era muito aplicada pelos juízes por ser inconstitucional e antiquada, mas as vezes era, como por exemplo em 1998 em Alegre, ES. A luta internacional pela igualdade entre os sexos perante a lei guiou os escritores da nossa constituição e também ajudou a “desestigmatizar” a atividade sexual da mulher. É válido afirmar também que a mídia teve um papel positivo, dando espaço a artistas que se expressavam livremente sobre sua sexualidade, quebrando tabus relacionados ao tema.

E a alternativa?

Em primeiro lugar, acho importante deixar claro aqui que sou a favor da liberação sexual da mulher e acredito que vimos muito progresso nas últimas décadas, principalmente nos anos 60-80. Sou contra a repressão sexual da mulher como acontece em países islâmicos, contra victim-blaming (jogar a culpa de atos hostis na vítima, como as vezes acontece em casos de estupro) e slut shaming (humilhação da mulher fazendo-a se sentir como uma “vadia”). Evito palavras como “puta/piranha/vagabunda” etc, e nunca as uso como ataque direto. Poderia me esforçar mais e tentar bani-las completamente do meu vocabulário, mas essa é uma questão que vou discutir com mais detalhe mais adiante no texto.

OK, até aí foram pontos que eu acredito ser consenso dentro do feminismo de forma geral. A grande questão é o quão importante isso é e, principalmente, o quão importante isso é em contraste com outro grande problema atacado por feministas:

A objetificação sexual da mulher

Diria que também há consenso com relação ao fato de que a mulher é representada de forma muito mais sexualizada do que o homem na mídia. Há uma quantidade absolutamente desproporcional de nudez feminina além das mulheres serem exibidas de forma bem mais sensual/provocativa, frequentemente em anúncios voltados para um público masculino.

Capas da GQ Men Of The Year 2012
Propaganda da BMW: “Você sabe que não é o primeiro dela. Mas você realmente se importa?”

Não vou entrar em detalhes numéricos aqui pois foge ao escopo do texto e acredito que seja senso comum. Basta andar pelas cidades do Brasil olhando para as bancas de jornal e já fica óbvio. De qualquer forma, para os curiosos ou céticos, há artigos mais detalhados, documentários (Dreamworlds 3: Desire, Sex, Power in Music Video, Miss Representation) etc.

A questão é: Isso é bom, ruim ou neutro? Melhor do que antes, pior, ou dá no mesmo? Degradante e objectifying, (“objetificante”) ou empowering (“empoderador”)? E, dependendo dessas respostas, que atitude se deve tomar com relação a essa desigualdade? É aí que irrompe a guerra feminista.

O grupo que se opôs às sex-positive feminists no primeiro conflito entre feministas, é algumas vezes rotulado como “anti-porn” (pelo menos é como está na Wikipedia). Eu acho um termo pouco representativo e enganoso, pois nem todo membro do grupo é contra a pornografia. Mesmo que fosse, também há diferentes formas de ser contra. Uma opinião provavelmente mais consensual nessa vertente do feminismo seria que, quer a pornografia seja conceitualmente algo ruim ou não, a pornografia como ela é feita de fato hoje em dia, voltada predominantemente a um público masculino, utilizando atrizes hiper-sexualizadas e apelando para extremos, é extremamente perigosa. O termo “anti-porn” também subdimensiona a motivação feminista sex-moderate. A pornografia é só uma parte de um problema muito maior, que atinge as pessoas desde crianças em todo meio de comunicação em todos os horários do dia.

Os males da sexualização

Como bem coloca Caroline Heldman, a hiper-sexualização da mulher é extremamente danosa:

“mulheres que crescem em uma cultura onde a objetificação sexual é bem difundida tendem a se ver como objetos de desejo para outros. Pesquisas mostram que objetificação sexual internalizada está ligada a problemas de saúde mental, como depressão clínica e habitual body monitoring (monitoramento habitual do corpo), distúrbios alimentares, vergonha corporal (body-shame), auto-estima e satisfação, funcionamento cognitivo, funcionamento motor, disfunção sexual, acesso a posições de liderança e eficácia política. Mulheres de todas as etnias internalizam a objetificação, como também os homens, embora estes em uma escala bem menor

Um estudo bem interessante utilizou um grupo de homens e um de mulheres, vestiu parte deles com roupas longas, e outra com bikinis/sungas, e avaliou o desempenho deles em testes de matemática. As mulheres de bikini tiveram resultados significantemente mais baixos do que as de roupas longas, enquanto a diferença entre os homens foi desprezível.

Outro conceito importante nessa discussão é o de role model (“pessoas que servem de exemplo”). Sabe-se que uma das principais formas de aprendizado do ser humano é através da observação. Todos nós, mas especialmente jovens e crianças, sofremos forte influência dos exemplos a que somos expostos. Bandura mostrou também que crianças são mais influenciadas por exemplos do mesmo sexo. Em uma cultura de mídia de massas, os exemplos a que somos expostos deixam de ser somente membros da comunidade como seria em nossos tempos de caçadores-coletores e passam a incluir celebridades da cultura pop. Uma pesquisa feita pela Associação de Professores e Docentes do Reino Unido mostrou que as celebridades que as crianças mais aspiram a ser são David Beckham e sua esposa, Victoria.

Vivemos em uma cultura de objetificação feminina, onde os exemplos que as crianças têm são artistas pop hiper-sexualizadas, e onde a presença feminina em posições de liderança é mínima. Será que é tão ilegítimo concluir que há alguma causalidade nessa correlação? Um experimento na Índia, por exemplo, foi feito com base em uma lei de 1993 que reservava posições de liderança a mulheres em vilarejos selecionados aleatoriamente. Comparado a vilarejos sem posições reservadas, a lacuna de aspiração diminuiu em 20% para os pais e 32% para adolescentes em vilarejos que nomearam uma líder mulher em dois ciclos eleitorais.

Uma cultura em que a mulher só é valorizada pela sua aparência, seu corpo, seu valor sexual, é uma cultura extremamente ineficiente em termos de aproveitamento de capital humano. Quantas médicas, empresárias, escritoras, pesquisadoras, políticas, engenheiras não poderíamos produzir que são perdidas para o mundo superficial do glamour sexual? Que desde cedo são induzidas a ser atraentes e sensuais ao invés de usar essa energia para se desenvolver intelectualmente? Que incentivos as mulheres têm para isso em uma cultura onde elas só se sentem valorizadas se forem “sexy”?

O relatório de 2009 do White House Project mostra a porcentagem de mulheres em posições de liderança nos EUA em diferentes áreas:

Negócios – 16%
Academia – 23%
Filmes & TV – 16%
Judiciário – 18%
Militar – 11%
Esportes – 21%
ONGs – 21%
Política – 17%

Como lidar com esse grande problema? Uma das atitudes mais óbvias seria incentivar maior ação coletiva, atacando a mídia e denunciando meterial sexista que objetifica a mulher, ou mesmo proibir esse material, como propôs a Suécia. De acordo com o relatório publicado pelo governo:

Comerciais sexistas afetam a construção da identidade dos indivíduos e são contra-produtivos para o objetivo da sociedade de atingir a igualdade entre gêneros

Liberdade de Expressão Sexual versus Responsabilidade Social

Como Tio Ben já dizia: “Um grande poder traz uma grande responsabilidade.”

A liberdade de expressão é uma grande vitória do liberalismo tanto para homens quanto para mulheres. As mulheres quebraram tabus e conseguiram reduzir enormemente o estigma em torno de sua sexualidade. Mas o que se faz com esse poder hoje em dia? Como exercem essa liberdade? Que efeito tem esse exercício? Até que ponto as mulheres ainda estão no controle? Até que ponto a representação sexualizada da mulher na mídia é saudável para a sociedade? Será que já não ultrapassamos esse ponto?

Em um contexto em que era comum se esperar pureza e virgindade da mulher, e onde usar saia acima do joelho era coisa de puta, a liberação foi boa. Mas e hoje, qual é a situação? A cultura em que homens podiam usar roupas curtas em ambientes informais enquanto saia acima do joelho para mulher era sempre coisa de puta se tornou uma cultura onde homens continuam usando os shorts e bermudas de mesmo comprimento enquanto mulheres no geral usam shorts bem mais curtos e expõe bem mais o corpo sem serem julgadas. Mas este não só se tornou um direito, mas um padrão, uma norma. Será que é tão importante aumentar ainda mais essa diferença?

Um dos resultados para a busca “normal couple” no Google imagens

Alguns argumentam que ainda se julga muito as mulheres, e que embora tenham mais liberdade do que antes, ainda sofrem o estigma de “vadia”. De fato, sofrem. A ponto de se revoltarem publicamente. Principalmente depois de um policial de Toronto dizer que as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não serem estupradas.

Mulheres protestam contra slut-shaming e victim-blaming

Eu admito, deve ser difícil ser mulher. Se você não se enquadra no padrão de beleza apresentado pela mídia, se não usa roupas provocativas e reveladoras, você é feia/nerd/esquisita/indesejada e não ganha atenção nem se sente valorizada pela sociedade. Se você se enquadra no padrão, mas usa roupas provocativas e reveladores demais, é puta, também atacada pela sociedade. Uma mulher vive o constante dilema de definir a linha a partir da qual ela é piranha, e a linha a partir da qual ela se torna indesejada. E é uma tarefa difícil, até porque pessoas diferentes têm julgamentos diferentes. O problema é que, por algum motivo, parece que a possibilidade de se vestir de forma provocante e reveladora sem estigma é algo muito mais importante de se reivindicar do que a possibilidade de se vestir de forma mais reservada e ainda ser valorizada por outras qualidades.

Recentemente houve uma nova erupção da guerra feminista com o lançamento do videoclipe Wrecking Ball, da Miley Cyrus, e uma carta aberta direcionada a ela escrita pela Sinead O’ Connor. A carta alertava Miley sobre a indústria da música e como ela explora a sexualidade das mulheres como cafetões. Ela denunciou a atitude da Miley como sendo quase uma forma de prostituição, e a criticou pelo efeito negativo que ela causa ao dar esse tipo de exemplo a outras mulheres.

Enquanto alguns de forma geral apoiaram a mensagem, outros a atacaram como uma afronta à liberdade individual da Miley. O que é importante entender é que existem os dois lados. Existe opressão sexual feminina, e também existe objetificação sexual. A pergunta é, a Miley ao se expor nua e de forma sensual no seu clipe, colabora com a liberação sexual da mulher? Isto é, com a diminuição do estigma da mulher com base no seu comportamento sexual? Ou será que ela colabora mais com uma cultura que só valoriza a mulher por sua sexualidade?

Existe uma diferença grande entre “exercer sua liberdade de expressão sexual” e colaborar por uma sociedade onde a mulher é mais livre sexualmente. A simples exibição do corpo só me parece cair no primeiro caso. Note que voltamos a uma questão fundamental: a mulher como objeto ou sujeito. A nudez e sensualidade, na maioria dos casos hoje em dia, só tem o efeito de ser uma visão agradável e excitante para um público masculino e um role model para outras mulheres. Diria que I Touch Myself, por exemplo, apresenta uma role model mais forte, se expressando sobre um tema do universo feminino, confortável com sua sexualidade e imune a tabus. A própria Madonna, com Like A Virgin, também apresenta uma personalidade mais forte. Há quem argumente que a Madonna em sua época foi tão criticada quanto as “Mileys” de hoje. A diferença é que a mídia hoje em dia está saturada de Mileys. Na verdade a Miley nem representa tão bem toda essa classe de mulheres hiper-sexualizadas necessariamente, eu diria que há retratos muito mais perigosos, principalmente no mundo do Hip-Hop ou Funk carioca. O caráter inovador, portanto, no caso das artistas contemporâneas, deixa de existir e elas passam a ser nada mais do que reforçadoras de estereótipos. A Miley não está sendo criticada por estar fazendo algo que foge muito do que a sociedade está acostumada. Ela está sendo criticada justamente por reforçar algo que já é exagerado.

Se toda a luta sex-positive a favor da Miley defende simplesmente sua liberdade individual e nada mais, então há algum mal entendido. A liberdade individual da Miley não está sendo ameaçada. Por mais liberal que se seja, há de se convir que alguma regulação a mídia precisa ter. Existe uma série de coisas que não são permitidas hoje em dia. Propaganda de cigarro, em alguns países propaganda de bebida alcoólica, propagandas racistas, e até de conteúdo sexualmente explícito. Quando um comercial é banido por racismo (como este da Mountain Dew), ninguém acusa os órgãos reguladores de estarem oprimindo os atores negros que aparecem no comercial. De fato, não faria sentido. Da mesma forma, não é a liberdade individual da Miley ou de qualquer outra mulher que está sob questão, mas a “massificação” desse tipo representação da mulher. Acontece que esse fenômeno só acontece porque há mulheres que se sujeitam a esse tipo de retrato, e a carta da Sinead se aplica justamente a elas. Os negros em um comercial racista não têm sua liberdade individual restringida, mas também certamente são vítimas de crítica, principalmente da comunidade negra que se sente ofendida. No caso da Miley, ou de qualquer mulher que aceita ser exposta sexualmente, a situação é a mesma. Elas ainda podem colocar vídeos no YouTube semi-nuas dançando de forma sensual, andar de micro-saia, decotão e salto alto na rua, e ninguém questiona esse direito. Elas ainda serão criticadas, mas a crítica feminista sex-moderate é tão machista quanto a crítica feita aos negros que permitiram a produção do comercial é racista.

E mesmo que sua liberdade individual estivesse sob questão, esse é um princípio necessariamente mais importante do que qualquer outro? Essa é a visão que eu chamo de liberalismo radical. As pessoas aceitam as restrições de liberdade quando dizem respeito a ações que afetam os outros de forma física, concreta (e.g. matar, roubar, fumar em ambientes fechados etc). Quando esse efeito negativo é mais abstrato ou indireto, as pessoas o ignoram e não só defendem a liberdade acima de tudo como parecem ter a ilusão de que essa liberdade já é plenamente respeitada por lei, mas está em perigo e precisa ser protegida. Alguns liberais radicais parecem achar, por exemplo, que se o governo começar a regular nossas liberdades vamos perder o controle e caminhar rumo a um futuro distópico autoritário Orwelliano. Ora, nós já temos nossas liberdades controladas, e muitas vezes é para o bem. Pense por exemplo no “direito de não pagar impostos”. Os cidadãos brasileiros não têm esse direito por uma questão de “bem maior” da sociedade. Você é obrigado a pagar impostos para que o governo possa ao menos tentar garantir direitos básicos a pessoas mais carentes. É claro, sempre tem algum anarco-capitalista para defender que não deveria haver governo ou impostos, mas essa é uma minoria. No geral aceita-se sacrificar um mínimo de regalias por um bem maior.

Imagine que vivêssemos no início do século XX, em um país de voto facultativo, e as mulheres tivessem acabado de conquistar o direito de voto. Imagine que, de imediato, apesar da conquista do direito, o comparecimento de mulheres às urnas fosse bem menor do que o de homens. Nos EUA, por exemplo, levou 60 anos para se igualar ao número de votantes homens. Imagine, porém, que nesse país hipotético a cultura fosse mais machista a participação política feminina continuasse muito baixa mesmo após 60 anos da possibilidade legal de voto. Imagine, então, que um grupo feminista propusesse a obrigatoriedade do voto para mulheres. Acredito que meu ponto já tenha ficado claro. Mesmo que alguns não sejam a favor dessa medida, tenho certeza que entendem a motivação por trás da proposta, e que reconhecem sua legitimidade. Tenho convicção de que também não consideram a proposta machista, mesmo embora ela restrinja os direitos individuais de um grupo de mulheres. De fato, restringe a liberdade das mulheres que não se interessam por política. Mas quão “natural” é essa falta de interesse? Quanto ela não é na verdade fruto da cultura onde essas mulheres estão imersas? Quanto elas não são de certa forma vítimas dessa cultura machista que as prende e reduz seu espectro de possibilidades de participação e estilo de vida? Nem sempre adianta garantir direitos legais quando a cultura é tal que não há incentivo algum para que as mulheres tenham participação política. Uma vez que a medida fosse aplicada, uma barreira seria quebrada e é provável que em algumas décadas a participação política feminina se tornasse natural a ponto que a obrigatoriedade fosse dispensável.

O papel do homem no feminismo

Uma das reações comuns por parte das feministas sex-positive é acusar aqueles que criticam qualquer comportamento feminino como “machistas”. Com o número de homens sexistas que existe por aí, não é uma grande surpresa que haja certa paranóia. Mas é necessário ser crítico. Rejeitar qualquer crítica sem ouvir os argumentos não é razoável. Críticas muito parecidas podem ter motivações e argumentos completamente diferentes.

O feminismo, no seu sentido mais básico, é a busca pela “igualdade de direitos políticos, econômicos e sociais entre os sexos” (Wikipedia). Portanto, só faz sentido denunciar uma crítica como machista se ela só valer para mulheres. Ora, a Sinead por acaso defende que homens se exponham de forma sexualizada na mídia? Ainda que defendesse, isso geraria alguma desigualdade de representação entre homens e mulheres? Pelo contrário. Ela poderia defender e ainda assim poderia-se argumentar que ela é (de uma forma estranha) feminista, pois pelo menos os dois sexos estariam sendo finalmente retratados de forma igualmente superficial. Mas não, obviamente ninguém defende isso. Pelo contrário, muitos feministas que lutam por uma mídia menos destrutiva criticam também o retrato de homens na mídia.

As feministas reclamam que são injusta e desigualmente criticadas por seu comportamento sexual, uma vez que os homens tem a liberdade para fazer o que quiserem sem serem estigmatizados. Será? Como Jackson Katz coloca em seu documentário Tough Guise, homens estão sob constante pressão de ser tough (“durões”), poderosos, em controle. Qualquer homem sabe a cobrança que existe para se ser promíscuo, dominante, “pegar geral” etc. Quem não faz jus a essas demandas é imediatamente rotulado de “perdedor, nerd, veado, pega ninguém”, etc. Ou seja, ainda que não seja tanto quanto as mulheres, os homens são estigmatizados também, só que de forma oposta à que acontece no caso delas.

Mas se feminismo é sobre igualdade, então há duas formas de se resolver o problema: Ou se estimula o exercício da liberdade sexual feminina e tenta-se forçar uma aceitação desse comportamento, ou se critica o homem pelo seu comportamento excessivamente promíscuo tanto quanto se critica a mulher (ao invés de criticá-lo pelo oposto). Ou faz-se os dois, de forma complementar, até se atingir um meio termo. Isso responde por que eu só evito as palavras puta/vadia/etc, ao invés de aboli-las completamente do meu vocabulário. Evito porque de fato não há uma palavra análoga tão “forte” para se criticar homens promíscuos. Mas deveria existir, porque uma cultura que incentiva uma promiscuidade generalizada é ao meu ver extremamente fútil e superficial, e eu vou continuar criticando esse comportamento. Mas critico tanto em homens quanto mulheres. Sendo assim, podem até chamar quem compartilha essas ideias de “conservador”, mas de machista? Não vejo sentido.

O homem e a mulher são sexos complementares na espécie humana. Em toda espécie sexuada, o comportamento de um é fator fundamental que molda evolutivamente o comportamento do outro. Dessa forma, não há como alterar o comportamento de um sem alterar o comportamento do outro. De fato, se um sexo é objeto, o outro deve ser sujeito. Se um é dominante, o outro deve ser submisso. Se a mulher quer se tornar menos submissa, o homem tem necessariamente que ser menos dominante. Qualquer outra coisa seria uma contradição. Cada sexo tem seus incentivos e estamos programados para fazer o que é mais vantajoso para nossos genes com base nas condições do jogo. Portanto, se queremos maior igualdade, devemos prestar atenção tanto nas mulheres quanto nos homens. Eu não encontrei estudos científicos sobre o assunto, mas ouso dizer que em países onde há maior igualdade de gênero, como os escandinavos, não só as mulheres tem a possibilidade de ser sexualmente mais ativas como os homens tem a possibilidade de ser menos. A dinâmica social entre homens e mulheres é diferente, tanto um sexo quanto o outro toma atitude, e nenhum é julgado por tomar atitude demais ou de menos.

Outro dia me deparei com essa discussão no facebook:

É claro que o valor que cada um se dá é algo íntimo e pessoal. Mas se uma mulher se veste de uma forma extremamente sensual e provocante, o efeito social que isso causa no mundo atual é de enfatizar sua dimensão sexual e portanto subvalorizar as outras dimensões. E quando o comportamento se torna generalizado entre as mulheres, reforça-se ainda mais o esteriótipo de mulher como um ser essencialmente sexual.

Talvez um dia, quando não houver diferenças na forma como a sociedade valoriza homens e mulheres, seja possível se vestir dessa maneira sem causar um efeito tão negativo. Mas embora isso possa soar ideal para alguns, fingir que já estamos nesse ponto não colabora para que o alcancemos. Certas mudanças requerem mudanças prévias, e pular etapas acaba atrapalhando o processo. É como cancelar aquela lei hipotética que torna o voto feminino obrigatório enquanto a lacuna entre porcentagem de participação entre os gêneros ainda é muito grande e ainda lutar ferozmente pelo direito e aceitação social das mulheres que não gostam de política. Não faz sentido, é contra-produtivo. Tudo bem, elas podem se vestir como quiserem, eu não as chamo de putas. Acho um comentário absolutamente ofensivo e nada construtivo. Mas não é um comportamento que colabore para uma menor desigualdade de direitos políticos, econômicos ou sociais entre homens e mulheres.

E novamente: Isso é machismo caga-regra? Só se implicar uma aceitação do comportamento análogo por parte dos homens. Se for um pitboy machão bombado pegador dominante que reforça esteriótipos negativos sobre a masculinidade e serve como péssimo role model para outros homens colaborando para uma sociedade mais violenta e propensa ao estupro em que se desperdiça capital humano incentivando grandes gastos de energia em busca de se adequar a um padrão extremamente fútil de existência (i.e. ficar fortão e pegar mulher) em detrimento do desenvolvimento intelectual, então sim, é um grande machista hipócrita “caga-regra”. Se for o Jackson Katz, com uma justificativa completamente diferente por trás, certamente não.

Como diz Caroline Heldman em sua palestra no TED, o que está sendo vendido não é puramente uma sexualização generalizada, mas uma divisão de papéis em que homens são sujeitos e mulheres objetos.

Sendo assim, no contexto em que vivemos, uma objetificação da mulher implica inevitavelmente uma simétrica “sujeitificação” exagerada do homem. Eu dou total apoio à SlutWalk no que diz respeito ao estupro. Quer se concorde ou não com a atitude de se vestir de forma hiper-sexualizada, isso NUNCA justifica esse terrível ato de violência. Mas se e enfatizarmos ainda mais a sexualização feminina, a polarização sujeito vs. objeto também é levada cada vez mais ao extremo. E um mundo exageradamente polarizado, onde mulheres andam semi-nuas pelas ruas, enfatizando somente sua dimensão sexual, enquanto os homens, de forma complementar, malham obsessivamente, as assediam, vêem-nas como pedaços de carne, só se interessam por elas sexualmente, onde ninguém se desenvolve intelectualmente e onde tudo isso é aceito sem que ninguém sofra nenhuma crítica, está longe da minha visão de mundo ideal.

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