Seria o racionalismo um sistema de crenças?

O conhecimento e a verdade

Na história da epistemologia, uma definição tradicional de conhecimento foi a de crença verdadeira e justificada. Verdadeira. Sempre fui muito interessado pela busca dessa verdade. Quando criança, aceitava o que minha família me ensinava por autoridade (não que eles fossem autoritários, apenas no sentido filosófico de argumentum ab auctoritate), o que incluía muitas visões religiosas. Essa, porém, logo deixou de parecer uma postura coerente para mim. Figuras de autoridade diferentes tinham visões diferentes sobre a realidade, como eu poderia saber quem estava certo? Logo me interessei sobre a ciência e seus princípios de racionalismo e imparcialidade (sejam estes plenamente alcançáveis ou não).

A ciência lança mão de uma ferramenta que todos usamos durante nossas vidas: A capacidade de raciocínio lógico. Ora, em todos os momentos de nossa vida cotidiana usamos essa ferramenta considerada tão fundamentalmente válida. Por que não usá-la também para abordar questões mais profundas sobre a natureza e a existência humana? Por que nesse contexto deveríamos utilizar outras ferramentas, que nunca puderam ser testadas e muitas vezes contradizem a razão (e.g. conhecimento baseado em autoridade, revelações etc)? Me parecia lógico que a única forma de garantir um conhecimento verdadeiro era através da ciência. Isso me satisfez por um tempo, mas não muito.

Afinal, estou apelando à lógica para justificar minha escolha por uma visão de mundo lógica, o que, por mais estranho que possa soar, pode ser acusado de ser meio circular. Após refletir muito sobre epistemologia, veracidade do conhecimento a priori como a lógica e matemática, a posteriori como a física, me deparar com os argumentos radicalmente subjetivistas e ainda assim inquietantemente irrefutáveis de O’Brien no livro 1984 e ler sobre a história da filosofia da ciência cheguei à mesma conclusão de Sócrates: Só sei que nada sei.

Controlamos a matéria porque controlamos a mente. A realidade está dentro da cabeça” – O’Brien (1984)

De fato, presume-se que percebemos o mundo através de órgãos sensoriais que funcionam como interface entre uma realidade física e nossa consciência. Mas como podemos garantir que a realidade física de fato existe se só podemos experienciá-la através da consciência? Só podemos supor. A única coisa cuja existência podemos garantir é, portanto, a própria mente per se. Essa visão recebe o nome de solipsismo. Eu sou a minha consciência, minha mente. Se penso, então existo. Mas mesmo essa proposição cartesiana é questionável (e há realmente quem questione).

Eventos passados, pode-se argumentar, não têm existência objetiva, mas sobrevivem somente em registros escritos e memórias humanas. O passado é aquilo sobre o que registros e memórias concordam. E como o Partido tem pleno controle sobre todos os registros, e em igualmente pleno controle sobre as mentes de seus membros, segue que o passado é o que quer que o Partido escolha que ele seja.” – 1984

1984 (filme de 1984)

Há proposições ainda mais difíceis de se questionar do que essa, como “Todo triângulo tem 3 lados”. Mas mesmo em torno dessas há debate. “Ora, mas essa é uma questão de definição!” – Sim, Kant se refere a afirmações desse tipo como analíticas, afirmações cuja veracidade depende somente do seu significado, em contraste com afirmações sintéticas, sobre a realidade. Mas ora, o que é uma definição? Apenas uma forma de explicar o significado de um termo com base em outros termos. Mas como esses termos usados na definição são, por sua vez, definidos? É visível que há uma espécie de paradoxo. Para uma definição ser explicativa, sem cair na circularidade, precisamos recorrer a noções primitivas, noções que não são definidas com base em conceitos já definidos, mas que são simplesmente “explicadas informalmente, com apelos à intuição e experiências prévias” (Wikipedia). Ora, experiências? Elas não diziam respeito somente a proposições sintéticas? Se aprofundando em questionamentos como esse, Quine argumenta que não tem como haver uma proposição que não recorra a questões factuais, sendo portanto sintética.

No final, mesmo o conhecimento a priori não nos garante muita coisa. Se baseia em axiomas que simplesmente aceitamos como verdadeiros, e a partir daí usa as regras da lógica dedutiva, também baseadas em axiomas, para provar seus teoremas. Ora, um axioma é uma verdade auto-evidente, “uma proposição que goza de aceitação geral; um princípio bem estabelecido e de concordância universal”, uma “noção primitiva”.

A matemática pode ser definida como a área em que nunca sabemos sobre o que estamos falando ou se o que estamos dizendo é verdadeiro.” – Bertrand Russell. Misticismo e Lógica (1917)

Logo, todo nosso conhecimento a priori, em última análise, se baseia na nossa intuição. Uma intuição tão básica que quase todos compartilham, e quem não compartilha é encarado como louco, de forma que para os fundacionalistas isso é garantia suficiente de veracidade. Mas ainda assim, é a mesma intuição que por vezes nos desaponta, apontando caminhos dos quais nos arrependemos. Uma intuição que, por sua vez, não é justificada. Um instinto animal, fruto de nossa existência enquanto indivíduos humanos. Um sentimento relativo, subjetivo, que só supomos dizer respeito a uma realidade absoluta devido a um consenso, não podendo nunca garantir. Na filosofia da matemática, por exemplo, o reconhecimento dessas incertezas é a base do intuicionismo proposto por Brouwer.

A filosofia é muito profunda e vasta. Não está no escopo desse texto me aprofundar, porém, nem tenho competência o suficiente para tal, na definição de definição, significado de significado etc. O ponto aqui, quer Kant ou Quine esteja mais correto, é que é sempre possível questionar certas “verdades”, e sempre há filósofos dispostos a fazê-lo com bons argumentos. Sempre pode aparecer um novo questionamento e abalar os fundamentos da lógica e da matemática, como fez Kurt Gödel ao provar seus teoremas da incompletude.

Pragmatismo

Não é possível viver uma vida saudável com um sistema de crenças que nos impeça de tomar as decisões do dia-a-dia. Tampouco levaria a proposição de ignorância socrática tão a sério a ponto de me abster de participar de qualquer debate ou formar minhas opiniões. Na prática, é claro que eu acredito que haja uma realidade física independente da minha existência, e é claro que eu acho que as leis mais básicas da lógica são de fato válidas.

O ceticismo [filosófico radical], embora logicamente impecável, é psicologicamente impossível, e há um elemento de falsidade frívola em qualquer filosofia que alegue aceitá-lo.

— Bertrand Russel; Human Knowledge, Its Scope and Limits

Mas como formar opiniões com base em premissas que, se exigirmos rigor, são tão incertas? Opiniões válidas deveriam se basear em fatos. Mas para argumentar que algo é um fato, precisamos de premissas que por sua vez também precisam ser justificadas com fatos. O que podemos fazer se o que é tido como fato o é com base em outros fatos e assim sucessivamente? Esse problema é conhecido na epistemologia e retórica como o “problema da regressão cética“. Ora, afirmações simples como 2+2=4 podem ser intuitivas e não garantir nada sobre a realidade em um nível objetivo mas, se todos concordarmos com sua veracidade, temos a opção de usá-las como premissas para justificar argumentos menos evidentes, o que seria uma versão mais modesta da abordagem fundacionalista tradicional. É que sugere o professor Walter Sinnott-Armstrong, da universidade de Duke, nesse ótimo curso oferecido gratuitamente pelo coursera.org:

Para não me paralisar diante das incertezas da vida, poder formar opiniões e me comunicar, portanto, deixo de lado o pretensioso empreendimento filosófico de garantir verdades absolutas e simplesmente parto de conjecturas, assumindo certas premissas intuitivas o suficiente como verdade. Isso, para começar, já inclui basicamente todo o conhecimento a priori. “Todo triângulo tem 3 lados” e todas suas consequências dedutivas. Aceitar premissas como essas significa basicamente se comprometer a respeitar certas convenções linguísticas:

Existem, de fato, certos princípios fundados na própria natureza da linguagem, pela qual o uso de símbolos, que não passam de elementos da linguagem científica, é determinado. Até certo ponto, esses elementos são arbitrários. Sua representação é puramente convencional: nos é permitido usá-los como preferirmos. Mas essa permissão é limitada por duas condições indispensáveis, – primeiramente, que uma vez estabelecido o sentido convencional, nunca nos distanciemos dele no mesmo processo de raciocínio; – em segundo lugar, que as leis através das quais o processo é conduzido sejam fundadas exclusivamente no significado previamente estabelecidos dos símbolos utilizados.

— George Boole; An Investigation of the Laws of Thought

Também é fundamental ressaltar que, além de convenções linguísticas, também me comprometo a respeitar minhas outras crenças e opiniões, por uma questão de coerência. Afinal, quando digo ter adotado os princípios da lógica como verdade, isso inclui a lei da não-contradição. A coerência é um conceito tão elementar que alguns filósofos formularam a teoria coerentista da justificação, segundo a qual uma suposição só é considerada justificada quando se encaixa em um conjunto coerente, se apoiando em um sistema de crenças complexo em contraste com o fundacionalismo, onde cada crença precisa se basear em verdades fundamentais. Sendo assim, se um princípio lógico me leva a uma conclusão em um contexto, a princípio também deveria levar em outro. Se proponho não ser o caso, cai sobre mim o ônus de justificar que a linha de raciocínio só é válida para um dos casos. Se acredito em acupuntura, por exemplo, e justifico essa crença com base em argumentos de apelo às massas e à tradição (e.g. “Todo o povo asiático vem usando isso há milênios, portanto, só pode ser verdade”), então deveríamos também, com base nos mesmos argumentos, concluir que o exorcismo também deva ser verdade. Repare que o ataque aqui não é à eficiência da acupuntura em si, mas apenas sobre a justificativa usada para defendê-la.

Presumo, também, pois me é intuitivo, que existe uma realidade externa objetiva, e que a experimento através dos meus sentidos.

Não existe tal coisa como certeza absoluta, mas há segurança o suficiente para os propósitos da vida humana.

 — John Stuart Mill

Além de aceitar essas premissas como verdade para mim, espero que também sejam aceitas por todos. É necessário haver um mínimo de premissas em comum para haver uma discussão com qualquer sentido. Se os participantes em uma discussão tomarem essas como verdade, então temos uma base em comum sobre a qual podemos construir argumentos. É claro, porém, que não vamos partir dos axiomas mais básicos da lógica cada vez que tivermos uma discussão, assim nunca haveria progresso na sociedade. Na prática, basta partir do ponto de concordância mais próximo. Na prática, acredito de fato que as pessoas tomem essas premissas básicas como verdade. O problema é que, por vezes, vamos construindo argumentos sobre argumentos e nos distanciamos dos princípios mais básicos, de forma que não é tão óbvio ver que estamos nos contradizendo, como no exemplo da acupuntura.

Ciência

Se até as verdades mais abstratas e óbvias da matemática já foram questionadas, imagine a ciência, que faz uma série de pressuposições sobre o universo para explicar fenômenos a posteriori. De fato, embora alguns fundamentos teóricos da matemática tenham sido abalados por algumas formalidades, na prática a matemática do dia-a-dia continua a mesma há milhares de anos. Já a ciência está em constante atualização e de fato passou por algumas grandes revoluções ao longo da história, como a copérnica no século XVI e a quântica nos anos 20, de modo que seria realmente insensato negar a possibilidade de que a ciência esteja errada sobre certas coisas.

Mas aí novamente entra aquela outra parte fundamental da tradicional definição de conhecimento: a justificativa. Como sugeri mais acima, vamos esquecer da verdade. A verdade plena é algo intangível, impossível de ser garantido com certeza absoluta. Mas para não ficarmos abatidos e estagnados em consequência dessa decepção filosófica, temos que fazer o melhor com o que temos e tentar pelo menos justificar bem nossas crenças. Esse esforço pode ser visto como a própria definição de ciência. A ciência é uma abordagem à busca de conhecimento que se compromete a utilizar métodos racionais de investigação da natureza. Informações são coletadas, experimentos são realizados, hipóteses são formuladas, testadas e conclusões são tiradas com base em preceitos lógicos e argumentos bem fundamentados. Tudo para justificar o que passa a ser chamado de conhecimento científico. Conhecimento que não necessariamente é verdade, mas que pelo menos podemos dizer que é uma crença bem justificada.

Alguns acusam a ciência de se sentir a “dona da verdade”. Eu diria que, se for para acusar a ciência por se sentir dona de alguma coisa, deveria ser “dona da justificativa”. Embora muitos vejam a ciência como uma forma de nos aproximarmos da verdade, a comunidade científica tem consciência de que nunca saberemos se já chegamos lá ou não. Essa consciência na verdade é tão importante que é uma das bases do método científico: uma teoria tem que ser aberta a falsificação, senão não é científica.

No exemplo da acupuntura, assim que forem apresentadas evidências empíricas, com base em experimentos que seguem princípios lógicos bem definidos, a ciência estará pronta para anunciar que, com base em novos estudos, foi comprovada a eficiência e veracidade da acupuntura. Reparem que, no fundo, provar para a ciência não significa garantir a veracidade, mas sim apresentar justificativas bem fundamentadas. “prova” e “verdade” são termos fortes que, por razões históricas e de simplicidade linguística, podem acabar sendo enganosos e parecendo absolutos, mas cuja relatividade é plenamente reconhecida nos princípios científicos.

O conhecimento consiste na busca pela verdade —a busca pela verdade objetiva, teorias explicativas… Não é a busca pela certeza. Errar é humano. Todo o conhecimento humano é falível e portanto incerto.

—Karl Popper

Autoridades

O “apelo à autoridade” é frequentemente citado como uma falácia argumentativa. Dependendo do contexto, pode ser. Mas não é necessariamente. De fato, todos usamos, em um momento ou outro, uma linha de raciocínio baseada em autoridade. Afinal somos seres sociais e aprendemos uns com os outros, acreditando pelo menos até certo ponto no que algumas fontes consideradas confiáveis nos dizem. O crítico aqui não é acreditar em autoridades ou não no geral. Mas sim determinar que autoridades são confiáveis e quais não.

Se alguém em uma discussão cita um artigo científico publicado na Nature, diria que faz sentido aceitar que o artigo é confiável. Como apontei anteriormente, a ciência se compromete a seguir preceitos racionalistas, de forma que se compartilhamos esses ideais, já temos uma grande razão para dá-la crédito. Além disso, tanto é o comprometimento da ciência que ela possui mecanismos institucionais para tentar garantir uma maior confiabilidade, como o processo de arbitragem (peer-review). Por último, devemos lembrar da relevância que tem a Nature no contexto da pesquisa científica internacional. A revista certamente agrega os melhores profissionais e seleciona os artigos mais qualificados, de modo que deve ser raríssimo que os artigos publicados nela contenham sérias incorreções.

Reconhecendo as limitações do que chamamos de conhecimento, minha confiança na ciência passou a se sustentar um pouco menos em uma visão realista, na qual a ciência é vista como uma forma de descobrir verdades sobre a realidade, e mais em uma visão instrumentalista, segundo a qual a ciência é simplesmente uma forma prática de chegar a suposições que nos permitam realizar nossos objetivos de forma mais eficiente. É claro que, na prática, não rejeitei o realismo por completo. Acredito que a ciência de fato nos diga algo sobre uma realidade objetiva. Mas reconheço que, com rigor, ela não nos garante nada. O instrumentalismo evita esse problema filosófico justamente ao dizer: “Quer a ciência nos garanta um maior conhecimento sobre a realidade objetiva ou não, ela nos traz resultados. Então é melhor continuarmos contando com ela se quisermos continuar progredindo”.

Pode ser que a ciência esteja errada sobre certas coisas? Que artigos publicados em revistas renomadas contenham erros? Sim. Nunca podemos garantir que nossas premissas são verdadeiras. Mas confiar em alguma autoridade faz parte de um mínimo que, se ninguém assumisse como verdade, não haveria discussão sobre praticamente nada, de forma que a ciência se torna também uma das premissas que tomo como verdade para poder tirar conclusões sobre a realidade. Isso não quer dizer, porém, que o status quo científico deva ser sempre defendido. Thomas Kuhn critica o que ele chama de “ciência normal” de ter essa atitude. De fato, isso vai totalmente contra o princípio científico progressista de constante aprimoramento. Só quer dizer que, se for questionado, deve ser feito com muito bons argumentos e através dos mesmos mecanismos acadêmicos e institucionais utilizados para assegurar algum grau de credibilidade às teorias já estabelecidas. Só assim pode-se considerar que novas descobertas realmente derrubaram o consenso científico prévio.

A ciência normal, atividade na qual a maioria dos cientistas gastam inevitavelmente a maior parte de seu tempo, é baseada no pressuposto de que a comunidade científica sabe como o mundo é. A ciência normal, frequentemente suprime inovações fundamentais porque estas necessariamente subvertem seus comprometimentos mais básicos. Se tratando de uma atividade que pretende resolver quebra-cabeças, a ciência normal não almeja inovações em fatos ou teorias e, quando bem sucedida, realmente não as encontra.

– Thomas Kuhn

Resumindo: pode até ser que alguns paradigmas da ciência estejam errados, mas não é um argumento de “discussão de botequim” que vai ter embasamento para quebrá-los. O consenso científico, portanto, continua sendo meu pressuposto até que sua incorreção seja devidamente comprovada por meios que ao menos se esforcem para ser neutros e confiáveis.

Além das ciências naturais

Embora tenha a impressão de que no Brasil haja uma certa implicância entre as ciências exatas e humanas, acredito seja quase desprezível no meio acadêmico mais esclarecido e no contexto internacional de forma geral. O problema das humanas não é que elas sejam pseudo-científicas, mas simplesmente que, por tratar de sistemas caóticos extremamente complexos, fica limitada pela tecnologia e pela falta de modelos adequados para descrevê-los. Tão limitada que, para progredir, mesmo com os avanços mais recentes da ciência, ainda precisa lançar mão de algum grau de especulação. Ainda assim, no sentido mais fundamental, não deixa de ser uma forma de ciência, pois se compromete a respeitar princípios racionalistas e toda produção acadêmica na área consiste fundamentalmente em um grande esforço para justificar suas conclusões. Não é à toa que essas áreas são conhecidas como ciências humanas.

Um problema é que, na medida em que a análise dos dados disponíveis se baseia em algum grau de especulação, há maior espaço para discordância. Basta uma leitura superficial de qualquer assunto na área de humanas que aparecem casos ilustrativos. As observações de Marx, por exemplo, levaram-no a acreditar que a revolução do proletariado consequente da luta de classes era inevitável e que levaria ao fim do capitalismo e instauração do socialismo. Já Bernstein, em contrapartida, se opunha a essa suposição, defendendo que o socialismo poderia ser conquistado de forma evolutiva, através da democracia representativa e cooperação entre diferentes classes. De fato, a revolução aconteceu em alguns países, embora não nos industrializados como Marx imaginara. Pelo contrário, em muitos dos países industrializados os trabalhadores braçais foram substituídos por máquinas e, com o tempo, através de políticas socialistas adotadas democraticamente, atingiu-se um nível de bem estar social maior do que qualquer país comunista.

Isso não tira de forma alguma o mérito de Marx como um dos maiores pensadores da história (muito mais conhecido do que Bernstein). Nem implica que seus métodos fossem pseudo-científicos. A questão é que a sociedade humana é um sistema extremamente complexo que simplesmente não tem como ser abordado através do reducionismo científico. No final, sempre vai haver opiniões conflitantes e só a história poderá dizer quem estava certo. Conforme a ciência avança, porém, modelos como os da teoria dos jogos e teoria do caos, por exemplo, nos permite cada vez mais abordar questões da economia, ciência política etc de forma metódica. Mas mesmo isso ainda é (e precisa ser) feito em combinação com outras abordagens, como por exemplo a interpretativa sugerida por Weber, ou as da teoria crítica e da crítica literária, muito usadas em estudos culturais. Repare, porém, que essa concessão só faz sentido quando complementa a ciência, não quando a contradiz. De fato, ela só se faz necessária porque o método das ciências naturais em alguns casos simplesmente não está disponível, de forma que sem uma alternativa o progresso seria extremamente lento.

Conclusão

Qualquer que seja a área, por mais difícil que seja ser empírico, é sempre importante (e possível) ter uma abordagem fundamentalmente científica, pelo menos no sentido de se comprometer a justificar suas conclusões com base em argumentos racionais. Se alguma questão não puder ser abordada cientificamente nem nesse sentido mais amplo, então é uma questão filosoficamente impossível de ser respondida com qualquer coisa melhor do que palpites aleatórios. Qualquer abordagem alternativa que rejeite a ciência, mesmo quando esta se faz disponível, rejeita o melhor que temos a nossa disposição para justificar nossas crenças, abandonando portanto o próprio empreendimento de justificação.

Quando deliberadamente abrimos mão de justificar nossas crenças, resta-nos por definição a fé. Nenhum argumento racional abala a fé pois ela não tem base para ser abalada. De fato, no sentido de aceitar psicologicamente uma ideia como verdade, é claro que toda visão de mundo envolve crenças. Mas só envolve fé quando abre mão da justificativa. A fé é justamente uma crença sem justificativa, e portanto se sustenta por si só. Poderiam argumentar que todos nós nos baseamos, em última análise, em alguma forma de “fé”. Afinal os axiomas matemáticos e as noções primitivas da filosofia da linguagem não passam de conjecturas, crenças sem justificativa. A diferença é que as noções primitivas dizem respeito a crenças sobre as quais há um consenso intuitivo universal praticamente inabalável, enquanto a palavra “fé”, que tem a mesma raiz latina da palavra “fidelidade”, é usada para questões mais controversas, que envolvem algum grau de devoção.

Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho. Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível.
– Hebreus 11:1-3

Segundo o fundacionalismo, o conhecimento se baseia em uma série de argumentos racionais construídos em última análise sobre premissas intuitivas (“crenças básicas“). Crenças religiosas, em contraste, por mais complexas que sejam, podem sempre se basear diretamente na fé. De fato, os melhores argumentos que já ouvi de religiosos apelavam à fé. Apontar contradições na definição de Deus é fútil, pois a fé em deuses não precisa ser justificada por argumentos racionais. Quando as pessoas reconhecem que suas crenças não possuem base na razão, mas sim na fé, seus argumentos se tornam irrefutáveis. O problema é que, por algum motivo, ainda há muitas pessoas que insistem em justificar crenças que não são racionalmente justificáveis.

Já abri mão da verdade na definição de conhecimento. Mas ao abrir mão da justificativa, só me restaria a crença com base na fé. A fé é irrefutável, mas não é conhecimento. A fé não é falível e não está aberta a contestação e mudança. Em um mundo onde fé e conhecimento se confundem, portanto, não há progresso. Se qualquer crença é válida então tudo vale e não há parâmetros para se julgar hipóteses diferentes sobre nada. Tenho consciência de que não posso provar categoricamente que essa visão de mundo, que rejeita a fé como fonte de conhecimento, é a única válida em um sentido absoluto. No entanto, com base em um mínimo que preciso tomar como verdade para tirar algum sentido de qualquer coisa na vida, é a única que consigo ver como coerente e, portanto, a que adoto para não cair em dissonância cognitiva.

[A ciência] não é perfeita. Pode ser mal utilizada. É apenas uma ferramenta. Mas é de longe a melhor ferramenta que temos
—Carl Sagan

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