Qualquer sistema de valores é igualmente válido?

Qualquer sistema de valores é igualmente válido?

Quando grande parte da população americana se revoltou com a proposta de construção de um mosque e centro comunitário islâmico em Nova Iorque, a dois quarteirões de onde ficavam as torres do World Trade Center, esse foi um dos comentários do então prefeito Michael Bloomberg:

É minha esperança que o mosque ajude a trazer os habitantes de nossa cidade ainda mais próximos e repudiar a falsa e repugnante ideia de que os ataques do 11 de setembro foram de alguma forma consistentes com o Islã.

Falsa ideia? Como mostram outros episódios como a publicação de The Satanic Verses por Salman Rushdie e das charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, a tensão entre o mundo secular ocidental e o islâmico tem sido uma constante há algumas décadas e não há parece haver previsão para mudanças. Quando observamos a reação a escândalos do tipo, encontramos sempre um grupo políticamente correto, defensor do multiculturalismo, que se abstem de críticas acusando-as de racistas, xenofóbicas, etc, e um backlash reacionário de extrema direita que exagera nas generalizações e prega atitudes radicais, como bem ilustra o caso de Breivik na Noruega. No meio intelectual e acadêmico, não acho que seria exagero dizer que ninguém apóia tais atitudes extremistas e violentas. Mas será que a única alternativa aceitável é se calar e fingir que não existe um problema?

Relativismo moral

Tudo é relativo. Não temos nenhuma certeza absoluta. Nem sabemos se o universo existe concretamente ou se é só uma ilusão da nossa própria consciência. Como dizem os solipsistas, a única coisa em cuja realidade podemos ter alguma confiança é nossa experiência subjetiva. Como consequência, qualquer tentativa de justificar alguma afirmação também se baseia em crenças pessoais, como bradam os pós-modernistas defensores do relativismo epistêmico. Porém, por razões práticas, adotamos uma atitude pragmatista e tomamos uma série de coisas como verdades absolutas. Supomos, por exemplo, que o universo existe e que outras pessoas também são seres vivos conscientes e com sentimentos e não programas da Matrix. Mas até que ponto é válido tratar certas coisas como verdade absoluta? Onde desenhar a linha que separa a simplificação necessária e legítima da arrogante e parcial?

Afirmações objetivas

O que é maior, um elefante ou uma formiga? Essa é uma comparação normalmente entendida como objetiva. Podemos concordar que diz respeito a uma propriedade absoluta do universo e não traz em si nenhum tipo de juízo de valor. É objetivo. Não depende da opinião de ninguém, desde de que haja consenso com relação à definição das palavras “elefante”, “formiga”, “maior” e ao funcionamento da gramática da língua. Não depende da experiência subjetiva das pessoas que avaliam a frase. O elefante é maior e pronto. Quem discordar é louco.

Afirmações subjetivas

Batata frita é melhor do que chocolate. Essa já é uma afirmação subjetiva. Não é algo discutível e dificilmente se pode tirar alguma conclusão construtiva de um debate acerca dessa afirmação. Depende da experiência subjetiva do degustador e se ele prefere batata frita não existe nenhuma base sobre a qual se possa construir argumentos que refutem sua preferência. Para todo efeito prático, a frase equivale perfeitamente a “Eu gosto mais de batata frita do que de chocolate”.

Do subjetivo ao semi-absoluto

Como falei no início do texto, se formos filosoficamente rigorosos, tudo é relativo. Então como eu posso dizer, logo depois, que uma formiga ser menor do que um elefante é uma propriedade “absoluta” do universo? Pois é, esse é o primeiro argumento crítico desse texto: eu não posso. Mas com todo esse rigor filosófico, simplesmente não podemos nos comunicar inteligivelmente. Na prática, “objetivo” e “subjetivo” não são como “preto” e “branco”. Existem infinitos tons de cinza, e para podermos viver em sociedade de forma cooperativa precisamos concordar com certas premissas, pelo menos as “mais escuras” (i.e. mais aceitas), e tratá-las como suficientemente objetivas para todos os efeitos práticos. Da mesma forma que aceitamos que o universo existe concretamente e que não estamos na Matrix, peço também que, para os fins dessa conversa, concordemos com certas convenções a respeito de nossa linguagem (definição de “elefante”, “formiga”, “maior” etc). Uma vez que concordamos com essas convenções, então sim, podemos fazer algumas afirmações (semi-) objetivas.

Ok, ótimo. Conseguimos concordar que um elefante é maior que uma formiga, e que embora isso não seja garantido com um rigor filosófico infinito, na prática simplifica a nossa vida considerar que este é um fato objetivo. Mas isso é meio óbvio não? Esse é um acordo implícito que todas as pessoas meio que automaticamente aceitam por razões práticas sempre que usam uma língua para se comunicar. Mas não é só quando se trata de assuntos claros e consensuais que as pessoas usam essas comparações absolutas. As pessoas usam absolutos o tempo todo. É como se o ser humano tivesse uma necessidade psicológica instintiva de estar sempre mais certo do que os outros, mesmo quando o assunto é chocolate e batata frita. Também é uma questão histórica. Nossa língua inevitavelmente carrega um legado cultural, e paradigmas segundo os quais o ser humano não está no centro do universo, ou em que não há um Deus para legitimar os valores humanos de forma absoluta, são historicamente recentes. Só que hoje em dia é tudo muito diferente, e embora nas ciências exatas ainda seja pouco controverso fazer certas aproximações, quando nos voltamos para questões de estética e moralidade, falar em absolutos se torna muito mais delicado.

Estética

Uma propriedade interessante em opiniões a respeito de estética é que elas tendem a rapidamente se tornar “irredutíveis”, no sentido de que é difícil encontrar premissas universalmente aceitas que justifiquem uma dada opinião. Podem falar que batata frita é quentinha e crocante mas se uma criança perguntar “e por que você prefere isso?” ad infinitum, logo a pessoa vai ter que desistir e dizer “ok, eu não sei, eu simplesmente gosto mais de uma coisa do que da outra, não sei por quê” (ver regress argument). É como se questões de estética estivessem em um tom de cinza bem claro. Ainda assim a sociedade humana nos dá inúmeros exemplos de convenções criadas de forma a permitir julgar certas propriedades em termos “absolutos” (ou menos subjetivos): o conceito de crítico especializado de música, cinema, teatro, de júri em concursos de Miss ou outros shows de talento, o sistema de avaliação de hotéis baseado em estrelas da Forbes, todos são tentativas de avaliar propriedades estéticas de uma forma semi-absoluta ao invés de simplesmente considerá-las uma pura questão de gosto. Mas como tornar o subjetivo mais objetivo?

Normalmente críticos são pessoas com experiência em sua área de atuação, grandes conhecedores de música, culinária, teatro ou o que quer que seja. Mas confiar cegamente em um crítico parte da premissa de que, se você tivesse o mesmo conhecimento de, digamos, culinária que o crítico, provavelmente avaliaria os pratos de forma igual. Ora, de fato o trabalho de um crítico tem espaço na sociedade e muitos valorizam suas avaliações. É claro, em algum nível de fato os indivíduos da espécie humana são parecidos o suficiente para que a avaliação de um restaurante feita por  alguém que se dedica a isso tenha alguma relevância para outros seres humanos. Mas diferente do elefante e da formiga, ainda há bastante espaço para discordância. Tanto que há diferentes críticos, em diferentes culturas, que fazem diferentes avaliações e agradam diferentes leitores.

No caso do júri, além da suposta autoridade do crítico especializado, há ainda outro grau de “absolutização”: o número de pessoas avaliando. Isso seria uma forma de levar em conta a variedade de opiniões encontradas em uma dada amostra da população. Não é mais apenas um crítico especializado, são vários. Se todos dão uma avaliação positiva a uma certa cantora do Ídolos, será que isso não quer dizer alguma coisa a um nível mais do que o subjetivo? Bom, em um nível filosófico não. Mas em um nível prático é isso que eles estão tentando fazer. Desenvolver um mecanismo de avaliação que seja dentro do possível neutro e objetivo. Eu em particular dificilmente me identifico com o júri do Ídolos, mas para o público que eles procuram atingir imagino que sua opinião seja relevante. Hoje em dia, com a internet, outro sistema de avaliação comum é o baseado em votos de usuários, como no IMDB. Em todo caso, por mais que o trabalho de críticos e júris especializados seja relevante, e por mais dignos de admiração que sejam os grandes músicos, atores ou chefs, o valor atribuído a sua obra não deixa de ser subjetivo.

Não importa o quanto se racionalize, não há como encontrar uma forma convincente o suficiente de se julgar questões estéticas de forma objetiva, e na maioria dos casos nem vejo por que seria importante encontrar uma. No máximo pode nascer um louco que gosta muito de se alimentar de fezes. Este será tratado como algum tipo de doente, mas mesmo assim, podemos dizer que ele está “errado” em gostar mais de cocô do que batata frita? Ele desvia de um padrão e isso pode ter consequências ruins para sua saúde. Mas, se ele prefere, então para ele é melhor. Levando tudo isso em conta, portanto, não vejo razões para considerar questões estéticas como algo além de questões fundamentalmente subjetivas. Mas e com questões que vão além da estética? Será que é importante encontrar uma forma objetiva de avaliá-las? Será que é importante concordarmos?

Moral

Quando o assunto é mais polêmico e trata de questões morais, a situação é mais complicada. Não se trata mais de prazer e entretenimento, mas de justiça, bem-estar, direitos, obrigações etc. No caso de questões morais, talvez por sua natureza mais profunda, delicada e pela seriedade de suas implicações, as pessoas tendem a ser mais relutantes em simplesmente dizer “eu acho isso errado e pronto, não sei por quê e nem preciso saber”. É mais difícil aceitarmos que questões morais são puramente subjetivas. Mas o que fazer ao perguntarem por que algo é “errado”? Como já mencionei no texto “Seria o racionalismo um sistema de crenças?”, a solução mais prática para o problema da regressão infinita de argumentos é simplesmente partir de algum ponto comum. Uma base com a qual todos concordam. E é exatamente o que as pessoas costumam fazer, consciente ou inconscientemente, quando falam sobre moral.

O lema dos anti-aborto ilustra bem isso: “Aborto é assassinato!”. Ora, assassinato é algo universalmente abominado. Se aborto é assassinado, logo, aborto também é abominável. Mas por que assassinato é errado? Ora, ninguém quer morrer. Lutar pela vida é assustador, morrer é doloroso, triste, vão sentir minha falta, meus entes queridos vão sofrer etc, etc. Mas e daí? Ora, sofrimento é ruim, é horrível. Ainda mais o sofrimento da morte ou da perda de alguém que se ama. Sofrimento é ruim e pronto, essa é a definição. Se faz sentido dizer que algo é “errado” é porque esse algo causa sofrimento em um grau que vai além do tolerável e justificável.

Utilitarismo

Essa é a linha de raciocínio do utilitarismo. Quanto mais uma ação causa sofrimento e mal estar a criaturas sencientes, mais ela deve ser considerada errada (repare que a lógica que justifica que assassinato é errado não funciona tão bem para o aborto, afinal um feto de poucas semanas não sofre, de forma que o lema anti-aborto é quase um jogo de palavras). De fato, é difícil pensar em um princípio mais fundamental do que esse. Dentro desse sistema de pensamento, as palavras “certo” e “errado” têm um significado bem mais claro e específico. Não é mais algo tão subjetivo. Na verdade é difícil dizer se é realmente uma questão moral e filosófica ou simplesmente linguística. Afinal, o que mais “mal”, “ruim”, “imoral” poderiam significar? Negar essa definição e insistir em usar as palavras é quase como negar a definição de “elefante”, “maior” e “formiga” e insistir que “Formigas são maiores do que elefantes”.

Aceitando a definição, vemos que o difícil é estimar quanto sofrimento algo causa com uma precisão maior do que a de uma pessoa que simplesmente responde em um questionário o quanto ela está sofrendo e determinar como será feito o cálculo do mais certo ou mais errado levando em conta o número de pessoas e o sofrimento e prazer gerado para cada uma delas. Se você tem que escolher entre deixar quatro pessoas morrerem dormindo com tiros na cabeça ou uma morrer espancada e queimada lentamente, qual é a decisão certa?

Ninguém tem a menor ideia de como comparar a leve dor de cabeça de 5 milhões frente às pernas quebradas de dois, ou às necessidades das crianças de si próprio frente às de 100 crianças com danos cerebrais sem nenhuma ligação na Sérvia.
– Patricia Churchland

Muitas questões estão em jogo, de forma que não é fácil responder essas questões. Mas se concordarmos com os fundamentos do utilitarismo, podemos dizer que em princípio existe uma resposta, mesmo em casos que na prática seja inalcançável.

Quando é importante concordar?

Como já comentei, no geral não vejo muitas razões por que seria importante encontrar uma forma objetiva de avaliar que obra é superior a outra em um sentido puramente estético. Talvez qual é mais relevante em um certo contexto, mas isso merece uma sessão mais adiante. Já quando se trata de questões linguísticas (e.g. significado de “elefante”, “maior”, etc), ou fatos sobre a lógica e a natureza (como argumento melhor no texto sobre racionalismo), se torna necessário algum nível de concordância para podermos nos comunicar e viver em sociedade.

Mas e as questões morais, onde se enquadram? Eu vejo uma diferença crítica entre moral e estética. De fato, pensando com rigor, sempre pode haver alguém que não concorde nem que espancar uma pessoa e queimá-la lentamente seja de forma alguma errado. Essa pessoa pode não concordar que isso cause sofrimento, pode não acreditar nas palavras da vítima, pode achar que ela é um programa da Matrix, etc. Ou pode simplesmente achar que seu prazer ao torturar é tão grande que compensa o sofrimento da outra pessoa. No final, é sempre subjetivo.

Mas é difícil negar que “torturar é errado” e “batata frita é melhor do que chocolate” são afirmações de naturezas diferentes. A segunda é claramente subjetiva mas a primeira está em uma área mais cinza. E o segundo argumento crítico que defendo neste texto é que faz mais sentido tratá-las como objetivas do que subjetivas. Afinal, certas convenções (e.g. torturar inocentes é errado) são tão universais que é perfeitamente legítimo tratar certas questões morais como questões absolutas, abordando-as de forma exata e científica. É o que defende Sam Harris em seu livro “The Moral Landscape” (algo como “O Relevo Moral”). Afinal, se existe algum sistema moral neutro o suficiente, um conjunto de diretrizes que parte de princípios quase universais e através das regras da lógica nos ajuda a avaliar o que é mais certo ou errado de forma imparcial, esse sistema é o utilitarismo. E se alguém não concorda com alguma regra tão universal (novamente, e.g. torturar é errado), o problema pode até estar na subjetividade do que essa pessoa considera certo/errado em um nível fundamental, como poderia ser o caso de algum psicopata etc. Mas é muito mais provável que esteja no raciocínio que leva do princípio básico aos casos particulares, como no caso de um fanático religioso que mata seu filho homossexual pois acha que assim está fazendo um “bem maior”, usando o exemplo do próprio Harris. O princípio do utilitarismo até foi respeitado. O erro foi em acreditar que o homossexualismo traria sofrimento, através de punição divina ou o que quer que seja, deturpando o resultado do cálculo.

Em TED Talk, Sam Harris fala sobre seu livro “The Moral Landscape”. Nele, o autor argumenta que o mundo moral é como uma paisagem montanhosa, onde os picos do relevo representam alta prosperidade humana e os vales representam a ruína e o sofrimento. Harris salienta que sua visão não se opõe de forma alguma à diversidade cultural, uma vez que não há apenas um pico possível, mas vários. Isso não significa, porém, que não existam vales.

Convenções linguísticas

Quando falamos em uma língua, uma série de regras e convenções são aceitas implicitamente. Aceitamos que cadeira é um objeto onde se senta e que respeita algumas outras propriedades, que um triângulo é um polígono de três lados etc. Nem tudo, porém, é tão preto e branco. Algumas palavras são vagas, ambíguas, e dependendo do contexto cada um pode interpretá-las de forma diferente. Isso pode dar origem a todo tipo de desentendimento. Por isso acho importante aqui deixar claro em que sentido eu uso alguns termos. Quando uso termos como “bom, ruim, melhor, pior, baixo, alto” etc, em um contexto moral, estou adotando uma lógica utilitarista. Quando estou falando de estética, vou evitá-los pois, como já mencionei, acredito que questões estéticas se reduzem muito rápido a experiências subjetivas não tão universais. Portanto, se os virem ao longo do texto, há grande probabilidade de que eu os esteja usando em um sentido moral e não estético.

Opiniões objetivas e subjetivas

Essa é uma distinção que eu gosto de fazer e acredito ser útil nesse texto. Opiniões objetivas dizem respeito à realidade do universo enquanto as subjetivas não. “Acredito que não existe vida na Via Láctea (a não ser na Terra)” é uma opinião objetiva. Eu não sei se existe, mas acredito que não. Mesmo que as razões por trás da minha crença sejam subjetivas (e.g. “eu sinto dentro de mim que não existe vida”), a opinião ainda é objetiva porque o universo será um lugar diferente dependendo do valor de verdade da afirmação.

A opinião estética “Mozart é melhor do que Beethoven”, porém, já é mais difícil de ser analisada objetivamente. É uma crença pessoal da pessoa que faz a afirmação e diz respeito somente à sua preferência. Não está ligada à realidade concreta do universo. Nenhuma descoberta sobre a natureza faria a pessoa mudar de opinião.

A crítica moral de obras estéticas

Recentemente escrevi um longo texto sobre o Funk Carioca. O estilo é um bom exemplo nesse texto porque acredito que, embora não exista tensão como muçulmanos no Brasil, o relativismo moral no país também tem sua forma de se manifestar, como fica evidente no contexto do funk e da população das favelas. No texto eu basicamente argumentava que meu desgosto pelo Funk não é apenas uma questão estética, e portanto subjetiva, mas uma questão moral, e portanto em algum grau uma opinião objetiva sobre a realidade do universo. Assim como eu acho que não existe vida na Via Láctea fora do planeta Terra, eu acho que alguns estilos do Funk trazem efeitos prejudiciais para a sociedade, em um sentido utilitarista. São portanto duas afirmações:

1. O Funk traz certos efeitos X para a sociedade.
2. X é moralmente ruim sob uma análise utilitarista (tende a colaborar para o mal-estar).

A afirmação (1) é bastante objetiva (como a afirmação sobre vida na Via Láctea). Eu posso estar certo ou errado mas a discussão continuará em aberto enquanto não forem feitos estudos científicos que verifiquem se de fato o Funk tem esses efeitos. No texto eu apresento uma série de argumentos que são suficientes para me convencer de que sim, tem. A afirmação (2) levanta uma questão moral ficando portanto em uma área cinza como mencionei. Mas uma área cinza que, como já defendi, para o bem da humanidade, deveria ser tratada como objetiva.

Culturas imorais

Se só uma pessoa no mundo segurasse uma menina no chão, enquanto ela luta e grita desesperadamente, cortasse suas genitais com uma lâmina séptica, a costurasse de volta, deixando apenas um pequeno buraco para urina e fluxo menstrual, a única pergunta seria o quão severamente essa pessoa deveria ser punida, e se a pena de morte seria suficiente. Mas quando milhões de pessoas fazem isso, invés da maldade ser magnificada em milhões de vezes, de repente ela se torna “cultura”, e então magicamente se torna menos, invés de mais horrível, e é defendida mesmo por “pensadores morais” ocidentais, incluindo feministas. 

– Donald Symons

Cultura. Essa palavra é uma das maiores fontes de polêmica e discordância nesse debate. Seres humanos não são computadores perfeitamente racionais e estamos inevitavelmente sujeitos a emoções instintivas mais fortes do que algumas vezes gostaríamos que fossem. Por mais que se definam os termos com cuidado, há certas frases que eu estou programado para rejeitar e que me tornam defensivo. Eu posso falar mal do Brasil o quanto for, mas se um sueco falar “a cultura sueca é superior à brasileira”, eu vou me ofender e adotar uma postura defensiva. Mas o que sequer significa dizer que uma cultura é “superior a outra” para começar?

No meu texto critico algumas culturas como sendo “inferiores” à “cultura das classes altas dos países desenvolvidos”. Por exemplo a cultura islâmica radical, dos ciganos pobres, e no Brasil a cultura do funk. Essas palavras são a outra fonte de polêmica. Eu deixei claro no texto que as uso em um sentido moral, mas ainda assim minha afirmação pareceu preconceituosa para alguns e foi atacada por todos os lados. De fato, dados os episódios de imperialismo e genocídio cultural da história humana, é compreensível a inquietação. Insistir nessa terminologia pode parecer pouco mais do que uma simples provocação. Mas não é essa a intenção. Reconhecendo o quão crítica é a escolha de palavras aqui, espero que reformulando meu discurso minha crítica fique clara: Algumas culturas tendem a gerar mal estar, maior sofrimento e menor desenvolvimento humano do que a cultura dos países ricos desenvolvidos.

Alguns tentam atacar as palavras “inferior” e “superior” como logicamente incoerentes. Dizem que não se pode avaliar pessoas como inferiores ou superiores pois isso não faz sentido. “Quem é superior, Stephen Hawking ou Usain Bolt? Não faz sentido”. De fato, se não deixarmos claro em que aspecto as estamos comparando, não faz sentido. Mas eu estou deixando claro: em um sentido moral, usando uma lógica utilitarista. Dentro desse paradigma, sob uma análise fria e matemática de índices e médias, acho palavras válidas. O único problema é o efeito provocativo inevitavelmente associado a elas. Mas admito, é um problema muito relevante. Dada a delicadeza da situação, portanto, vou conceder que dentro do possível essas palavras devem ser evitadas. Mas assim como seu abuso pode ser perigoso, também pode a supressão indiscriminada. Precisamos ter alguma forma eficiente de expressar que existem mais aspectos ruins em algumas culturas do que em outras.

Se nosso bem-estar depende da interação entre eventos em nossos cérebros e no mundo externo, e se há maneiras melhores e piores de alcancá-lo, então algumas culturas tenderão a produzir vidas mais dignas de serem vividas do que outras; algumas convicções políticas serão mais iluminadas do que outras; e algumas visões de mundo estarão erradas no sentido de que causam sofrimento humano desnecessário.
– Sam Harris; The Moral Landscape

Generalizações

Outra crítica que fazem a algumas dessas afirmações é que elas são generalizações ilegítimas. Realmente sempre há exageros quando se discute temas controversos. O debate acerca do termo “Islã, uma religião de Paz” ilustra bem o problema. De fato dizer que “o Islã é uma religião que prega a violência” é simplista e de certa forma hipócrita, afinal o Alcorão não prega muito mais violência do que o Antigo Testamento, compartilhado com os cristãos e judeus. O Islã, como qualquer outra religião é aberto a interpretação, e nada impede que hajam interpretações pacifistas (como de fato existem).

O problema do radicalismo islâmico portanto nasce de uma combinação de vários elementos. A doutrina do Alcorão é certamente um deles, mas se fosse o único os cristãos e judeus deveriam ser tão violentos quanto os muçulmanos. Também há questões geográficas, o nível de desenvolvimento humano das populações praticantes da religião, e uma série de circunstâncias que têm como consequência uma frequente interpretação fundamentalista da escritura. Mas o fato é que, por qualquer que seja o motivo, na prática a comunidade islâmica é mais propensa a essas interpretações e isso implica violentas afrontas aos direitos humanos, de forma que insistir que “o Islã é uma religião de paz” é igualmente simplista e hipócrita, além de perigoso.

No caso do Funk, vou reconhecer que, de fato, ao insistir em usar o termo “funk” pura e simplesmente, para me referir ao que na verdade são sub-estilos do funk, eu de fato faço uma generalização que embora ajude a me expressar com menos palavras, é facilmente mal-interpretada. O problema é que, na ausência de certos termos como funk “radical” ou “fundamentalista”, não existe uma forma prática de corrigir esse erro. Eu poderia me referir ao estilo que eu critico como “funk sexista” ou “funk violento” etc, mas além de cada um desses títulos focar em só um dos aspectos que eu critico, me acusariam de já estar definindo o estilo de forma negativa. E mesmo que não acusem, mas digam “é, realmente, se for sexista eu também sou contra”, eu teria deixado uma questão importante de fora: Quais funks se enquadram como sexistas.

De fato não conheço o funk e seus sub-estilos bem o suficiente. Mesmo assim, eu já ouvi funks que considero bastante construtivos inclusive e não vejo de nenhuma forma como negativos. Eu não estou por dentro o suficiente do mundo do funk para poder dizer com rigor qual é a proporção de “funk negativo” e “funk positivo”, mas para o mundo externo a imagem que o funk passa é de um estilo bastante obsceno beirando o grotesco. E é esse aspecto que eu critico. Se houvesse um movimento dentro do funk, com artistas que promovem a criação de funk que respeita as mulheres e não exalta valores prejudiciais como hiper-sexualização, ostentação e violência, teria meu total apoio. O mesmo vale para movimentos ciganos que exaltam sua música, vestimenta e tradições rejeitando os valores negativos associados ao grupo, movimentos que procurem enfatizar a riqueza da cultura negra desencorajando atitudes subdesenvolvidas, e omovimentos islâmicos que preguem uma interpretação pacifista do Alcorão.

Mas e se, mesmo existindo essa vertente positiva do funk, eu ainda dissesse “ok, mas em média, a cultura do funk ainda é negativa enquanto essa vertente for minoritária”? E se eu fosse mais longe e dissesse que “em média, a cultura da favela é mais negativa do que a cultura da classe média”. Será que é uma generalização ilegítima e elitista? Uma crítica que me fizeram no texto é que essa abordagem só colabora para a estigmatização da exceção. De fato, pode colaborar. Mas qual é a alternativa?

Outro dia me criticaram por afirmar que estatisticamente negros se envolvem mais em crimes do que brancos. Disseram que ainda que a proporção de negros em prisões seja maior do que a de brancos, isso só revela que negros são mais condenados do que brancos. Sim, tenho convicção de que parte da desproporção seja consequência disso. Mas afirmar que este fato sozinho a explica é prova de que a correção política está se tornando um empecilho para um debate honesto sobre assuntos “polêmicos” como criminalidade e raça. A população negra no Brasil e em praticamente todo o mundo foi vítima de todo tipo de barbaridade ao longo da história e é evidente que isso tem consequências. A população negra até hoje é predominantemente pobre e é um fato conhecido que exclusão social é uma das grandes causas da criminalidade. Na Austrália a situação é ainda mais bizarra: aborígenes são presos a uma taxa 14 vezes maior do que não-aborígenes. Será que simplesmente ignorar a história e negar seus efeitos é construtivo para o debate? Reconhecer esses fatos per se não sugere de nenhuma forma que negros ou aborígenes tenham uma propensão “genética” ao crime ou à pobreza. Se alguém a partir dessa premissa chegar a essa conclusão, devem sim ser atacados. Mas ataquemos a implicação falaciosa ou as outras premissas utilizadas implicitamente, pois é aí que o problema está, não fatos inegáveis, por mais tristes que possam ser.

Um detalhe interessante é que essas pessoas são as mesmas que apoiam (assim como eu) todo tipo de ação afirmativa visando a diminuição do estigma associado a raça ou classe social e a melhoria das condições de vida destes grupos. Mas ora, o fato deles estarem em condições menos desenvolvidas só nos dá mais razão para apoiarmos ações afirmativas! Então novamente pergunto, de que forma seria produtivo negar esses fatos? Tudo bem, lembrar a situação desvantajosa de grupos excluídos não colabora para a construção de uma imagem exatamente “grandiosa” deles no imaginário popular. Mas a consciência de que existem grupos desprivilegiados motiva a mim e muitos outros a apoiar medidas que os dê tratamento especial visando diminuir a desigualdade. Se motiva outros a rejeitar essas medidas, formar grupos neo-nazistas etc, então temos que estudar e descobrir o que exatamente torna essas pessoas propensas a atitudes tão hostis e violentas, porque claramente não é o simples reconhecimento de que existem grupos em estados mais desprivilegiados de desenvolvimento.

É claro, existe um limite. Certas afirmações podem ser tão perversas que acabam não passando de uma provocação nada construtiva. “A cultura negra é inferior à cultura branca”. Essa é uma frase tão vaga e fácil de ser interpretada de forma negativa que é difícil ver que ponto positivo ela pode ter. A “cultura negra” e a “cultura branca” são tão abrangentes e heterogêneas que dificilmente seria construtivo tratá-las simplesmente como duas simples unidades. Certamente existem aspectos em algum subconjunto da cultura negra que são mais positivos do que certas práticas originais de alguma comunidade branca. Mas será que reconhecer que negros se envolvem mais em crimes do que brancos numa discussão sobre racismo e ação afirmativa passa dos limites? Será que reconhecer que o funk tem aspectos negativos é extremo demais? Será que constatar que de fato opiniões radicais são comuns na comunidade islâmica é xenofobia ilegítima?

Pode haver os que digam que “não vale a pena o risco” de fazer certas afirmações, dadas as possíveis interpretações ruins e movimentos hostis. Mas toda decisão na vida é um trade-off, e se a alternativa é simplesmente fingir que não existe mais violência, sexismo etc em certos grupos, então eu opto pelo racionalismo e honestidade intelectual e mantenho a minha posição.

Se o sueco fizesse todas essas ressalvas e deixasse claro que está se referindo exclusivamente a aspectos morais, talvez eu não me sentisse tão ofendido. Afinal, até certo ponto eu até concordo. De fato as instituições políticas, a mentalidade, os padrões de comportamento, os valores e até os efeitos sociais da produção artística na Suécia são tais que permitem um grau de desenvolvimento humano maior. Mas por que alguém deveria defender com tanto esforço o direito de dizer que uma cultura pode ser dita menos desenvolvida do que outra?

Do pior para o melhor

Alguns dizem que não faz sentido defender esse direito, que é contra-produtivo insistir nesse tipo de discurso e nessa nomenclatura. Dizem que as exceções sofrem com uma estigmatização mesmo sem ter nenhuma culpa, que adotar uma postura de superioridade faz aqueles que se deseja educar adotarem uma postura defensiva, e que isso é ruim didaticamente, etc. Devo admitir que, em parte, concordo com essa crítica. De fato, em algum grau é verdade. Mas em que grau? Por exemplo, meu professor na universidade certamente sabia (e ainda sabe) mais cálculo do que eu. Esse é um fato aceito e reconhecido, e constatá-lo não seria algo muito polêmico. Mas eu não sentia da parte dele nenhum tom de superioridade. Se alguém por algum motivo passasse a defender um discurso que inclui o reconhecimento da superioridade dos professores de cálculo com relação aos alunos, deveríamos reprimi-lo? Deveríamos atacá-lo por estar ofendendo os alunos? Se um professor falar publicamente sobre uma técnica que se aplica principalmente a alunos com mais dificuldade, deveríamos criticá-lo por estar estigmatizando os alunos bons?

Alguns talvez achem absurda essa comparação, que de certa forma sugere que uns podem saber melhor sobre o que é certo ou errado do que outros assim como alguns sabem mais cálculo do que outros. Sam Harris no livro que já mencionei faz uma analogia entre saúde e moral, e fala inclusive sobre a possibilidade de um dia termos “especialistas em moral” da mesma forma que hoje tempos “especialistas em saúde”. Alguns também acham sua ideia de “especialistas em moral” repugnante: assustadoramente “Orwelliana” e “uma receita para o fascismo”. Mas ora, ninguém se sente vivendo em um futuro distópico Orwelliano e neo-fascista se um médico ou mesmo um estudante de medicina nos dá conselhos sobre como poderíamos viver nossas próprias vidas de forma mais saudável. Ninguém acha imperialismo elitista se um voluntário educado de classe média der dicas de saúde para pessoas menos instruídas em locais com condições sanitárias precárias. Na verdade Harris sugere que as ciências médicas e a “ciência moral” que ele defende são meros ramos de uma mais genérica: a ciência do bem-estar.

Vale também reparar que embora o discurso incondicionalmente pró-minorias use argumentos relativistas e diga que “qualquer sistema de moral é igualmente válido”, as premissas que sustentam suas críticas costumam ser utilitaristas (estigmatização causa sofrimento, ofensa com tom de superioridade causa sofrimento, etc). Ora, se concordamos com o utilitarismo então vamos ser construtivos e discutir qual das alternativas causa mais sofrimento ao invés de apelar para acusações de imperfeição filosófica que se levadas rigorosamente a sério paralisam qualquer possibilidade de debate racional. Afinal, se qualquer conjunto de práticas é tão válido quanto qualquer outro e nada é melhor do que nada, o que sequer significa lutar por “um futuro melhor“?

Polarização político-ideológica

Como já argumentei, reconhecer que de fato faz sentido que estatisticamente negros se envolvam mais em crimes é construtivo para o debate acerca de políticas públicas e ação afirmativa. De forma análoga, Reconhecer que há elementos condenáveis no funk também seria construtivo para o debate a cerca da regularização do estilo. A primeira lei que tentou regular o funk foi excessiva e ficou conhecida por “proibir” o estilo, e de fato existe uma parcela radical da direita que é abertamente preconceituosa e violenta e deve ser combatida (como fica evidente nos comentários desse vídeo). Mas a atitude atual de defender o funk como manifestação cultural legítima sem propor nenhuma regularização alternativa, de tolerar e encorajar sua presença nas escolas sob o pretexto de tolerância atacando qualquer proposta que limite o estilo, também passa longe dos limites do razoável.

Uma das críticas mais preocupantes que recebi foi de estar “dando voz e argumentos a extremistas de direita”. Ora, se eu não estiver em um extremo eu tenho que necessariamente estar no outro? Certamente podemos encontrar uma solução melhor entre os dois limites. Poderíamos por exemplo categorizar o trabalho de alguns artistas específicos como entretenimento adulto e impor restrições à sua atuação, impedindo performances próximas de escolas, creches ou zonas residenciais como em alguns estados dos EUA (e é claro, impedindo, sua reprodução dentro das escolas). Essas são apenas algumas propostas que me vêm à cabeça em um rápido devaneio. Podem ser adequadas ou não, e podemos pensar em muitas outras, como foi o caso da deputada bahiana Luiza Maia, autora da lei que ficou polemicamente conhecida como “Lei anti-baixaria”. Mas o objetivo do texto não é esse. É algo mais urgente: questionar um paradigma relativista que paralisa o debate, para que aí sim, a sociedade esteja aberta a discussões e disposta a fazer propostas ao invés de se tornar defensiva e atacá-las como elitismo opressor como bem ilustram as reações à lei de Luiza (como essa).

Uma ciência da prosperidade humana pode parecer estar a uma grande distância, mas para alcançá-la, precisamos primeiro permitir que o terreno intelectual exista.
– Sam Harris

Enquanto o terreno não existir, me parece que se algum movimento dá força indireta à extrema direita, é a extrema esquerda. Quando as massas trabalhadoras do mundo desenvolvido se vêem rodeados e afetados por problemas sociais causados em grande parte por imigrantes e tem que escolher entre intelectuais relativistas defensores do multiculturalismo ou líderes populistas carismáticos de extrema-direita, quem será que eles vão apoiar?

Nesse episódio de South Park os “white trash rednecks” se revoltam quando “pessoas do futuro” começam a migrar para os Estados Unidos do presente e “tomar o emprego” de todo mundo.

Essa teoria já vem sendo sugerida há algum tempo (como nesse artigo), desde o caso de Breivik, e os assustadores resultados das eleições para o parlamento europeu esse ano só parecem confirmá-la, como ilustram os comentários em notícias como essa.

De volta à estética

Como falei mais cedo, não vejo como seria produtivo quebrar a cabeça para encontrar uma forma de tratar valores estéticos como algo absoluto. De fato, normalmente não há por quê. Mas em alguns contextos defendo que pode ser legítimo, e mais produtivo do que uma abordagem excessivamente relativista.

Se em qualquer momento estiver em discussão em uma escola, por exemplo, um evento relacionado a música, e os organizadores se dividirem entre um grupo que prefere promover a música clássica, e outro que prefere explorar o funk, mesmo que só funk inofensivo, eu estaria em na maioria das vezes no lado que defende a música clássica, por uma série de motivos:

  • Maior exercício intelectual ao estudar estilos mais complexos. Assim como conceitos complexos da matemática podem ser um exercício mental construtivo mesmo para quem não seguir carreira na área, a música erudita também pode ter um papel parecido.
  • Bem estabelecido como estilo com relevância histórica, o que o torna neutro comparado a estilos contemporâneos que inspiram opiniões mais diversas. (Antes que me acusem de opressor, também acho que o Jazz, Blues e mesmo o Samba são relevantes historicamente)
  • Enriquece culturalmente as crianças através da diversificação, expondo-as a algo que elas não teriam acesso na cultura popular “mainstream”. Talvez esse seja o motivo mais crítico dos três.

Mas “maioria” não quer dizer 100%. Se o evento por acaso se tornasse anual, ou deixasse de focar necessariamente em apenas um estilo, eu encorajaria a inclusão do funk. Mas encorajaria sob a condição de que fosse feita uma crítica explícita contra os tão recorrentes temas ofensivos do Funk. Caso contrário, por mais inofensivo que fosse o funk abordado, não acrescentaria nada às crianças que já estão imersas em um ambiente onde o funk é onipresente. Pelo contrário, só reforçaria ainda mais a lavagem cerebral realizada pelas forças sufocantes de uniformização às quais estão sujeitos. Já como ferramenta de crítica ao funk, aí sim, acredito que não haja nenhuma mais poderosa do que o próprio funk, principalmente para aqueles que sentem que o estilo faz parte da identidade de sua comunidade.

Reparem que embora eu esteja julgando um conjunto de obras artísticas mais relevante que outro em um dado contexto, meus argumentos dizem mais respeito a valores morais do que estéticos. Eu me baseio nas premissas de que o desenvolvimento intelectual através do estudo de temas complexos é frutífero para o desenvolvimento humano, de que o estudo da história é algo construtivo, e de que a diversificação cultural é desejável para a população. No final quase tudo se reduz a valores: até a autoridade da medicina, por exemplo, é respeitada formalmente pois concordamos com seu conceito de saúde e compartilhamos o valor que damos à honestidade científica, respeito por evidências e outros valores epistemológicos em que a medicina se baseia.

Conclusão

Rigorosamente, não podemos garantir nenhuma verdade absoluta: Nem afirmações sobre gosto (e.g. batata frita é melhor que chocolate), nem morais (e.g. torturar criancinhas é errado) e nem mesmo factuais (e.g. tem uma lua orbitando a terra) ou lógicas (e.g. 2+2=4). Mas para não deixar que as limitações de nossa filosofia nos paralisem, precisamos tratar algumas coisas como objetivas o suficiente. Na prática já fazemos isso com muitas questões factuais e lógicas, e até certo ponto até morais. Mas como defendi no texto, embora na prática tomemos certos princípios morais como verdades absolutas, não abraçamos essa atitude conscientemente e são poucos os que a defendem intelectualmente. Mas da mesma forma que o conceito de saúde e seu estudo sistemático beneficiam a sociedade, o reconhecimento de certos princípios morais como valores científicos fundamentais também beneficiaria.

É claro que a situação na favela é difícil. De fato a estigmatização é algo que atormenta as classes negras e pobres do Brasil desde a colonização etc. O mesmo vale para os imigrantes de origem islâmica na Europa e América do Norte. O caso do funk pode até também ser delicado, dado que alguns podem considerar o estilo parte importante da identidade cultural. Mas a cultura da favela abrange muito mais do que funk e, no fundo, o funk não deixa de ser uma escolha.

Imagine que o movimento skinhead no Brasil começa a se tornar mais popular. Vê-se mais skinheads nas ruas e logo começam a sair notícias sobre racismo, homofobia, violência, crimes de ódio etc. Imagine então que como resposta surja um movimento anti-skinhead. Não é claro que o movimento anti-skinhead quer proteger o bem-estar na sociedade? Se o movimento ganhar visibilidade talvez as pessoas sejam mais críticas com relação aos skinheads. Talvez isso evite que jovens suscetíveis acabem sendo atraídos por eles. Talvez a conscientização da população incentive o debate, criando um ambiente propício para propostas e tentativas de solução. Talvez aprovem leis que punam com mais rigor crimes de ódio, apologia, etc. Mas ora, calma aí! Nem todo skinhead é fascista e violento! Logo, o movimento anti-skinhead deve ser combatido, pois acaba estigmatizando os pobres skinheads não-fascistas que não tem culpa de nada. E vamos reprimir também qualquer discurso que sugira que os skinheads formam um grupo violento e moralmente inferior. Faz sentido?

OK, reconheço que o caso do funk é mais delicado, afinal o grupo associado ao estilo calha de ser um grupo com origens históricas muito mais turbulentas do que o grupo de skinheads. Mas, mutatis mutandis, a analogia ainda se mantém. Afinal, um indivíduo opta pelo funk tanto quanto por pertencer ao movimento skinhead. E mesmo para aqueles que sentem que o funk faz parte da sua identidade cultural, só com o reconhecimento de que o funk mainstream atual está muito carregado com aspectos negativos podemos sonhar com movimentos tanto fora quanto dentro do funk que promovam valores mais saudáveis e rejeitem aqueles que sujam seu nome hoje em dia. E isso vale para a comunidade do Hip-Hop, do Reggaeton, dos países da África subsaariana onde a mutilação genital é comum, dos ciganos, dos imigrantes muçulmanos, latinos, negros etc. Sua cultura deve ser simplesmente reprimida? Não. Mas também não deve ser indiscriminadamente exaltada sob pretexto de multiculturalismo. Devemos estudar seus vários aspectos e com base em fundamentos morais universais o suficiente avaliar racionalmente que aspectos devem ser exaltados e quais reprimidos.

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