Qualquer sistema de valores é igualmente válido?

Qualquer sistema de valores é igualmente válido?

Quando grande parte da população americana se revoltou com a proposta de construção de um mosque e centro comunitário islâmico em Nova Iorque, a dois quarteirões de onde ficavam as torres do World Trade Center, esse foi um dos comentários do então prefeito Michael Bloomberg:

É minha esperança que o mosque ajude a trazer os habitantes de nossa cidade ainda mais próximos e repudiar a falsa e repugnante ideia de que os ataques do 11 de setembro foram de alguma forma consistentes com o Islã.

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Seria o racionalismo um sistema de crenças?

O conhecimento e a verdade

Na história da epistemologia, uma definição tradicional de conhecimento foi a de crença verdadeira e justificada. Verdadeira. Sempre fui muito interessado pela busca dessa verdade. Quando criança, aceitava o que minha família me ensinava por autoridade (não que eles fossem autoritários, apenas no sentido filosófico de argumentum ab auctoritate), o que incluía muitas visões religiosas. Essa, porém, logo deixou de parecer uma postura coerente para mim. Figuras de autoridade diferentes tinham visões diferentes sobre a realidade, como eu poderia saber quem estava certo? Logo me interessei sobre a ciência e seus princípios de racionalismo e imparcialidade (sejam estes plenamente alcançáveis ou não). Continue reading “Seria o racionalismo um sistema de crenças?”

Teletransporte e consciência

Imagine que saia no noticiário que cientistas conseguiram inventar uma máquina de teletransporte. Eles explicam que ela funciona assim: Você entra em uma máquina que “escaneia” seu corpo, por dentro e por fora, armazenando todos os dados que te definem, como altura, peso, número de fios de cabelo, configuração das sinapses no seu cérebro, todo último detalhe sobre sua estrutura física. Essa máquina então envia os dados para outra máquina em qualquer parte do mundo e te desintegra. A máquina que recebe seus dados do outro lado do mundo é alimentada com material orgânico e então lê os dados e te recria fielmente, com exatamente o mesmo tamanho, peso, configurações nervosas, etc. A máquina é testada com animais e finalmente com seres humanos, tendo resultados bem sucedidos. Pessoas entram na máquina e saem do outro lado com exatamente a mesma aparência física, mesma personalidade, mesmas memórias e mesma saúde. Centenas, milhares de pessoas entram na máquina e nunca nada dá errado. É a forma de viagem mais segura (considerando as estatísticas, ao entrar num avião ou carro por exemplo há uma probabilidade maior do que 0% de nunca chegar ao seu destino). Essa máquina, porém, nunca deu erro. Você entraria nela?

Eu não. Se você respondeu que sim, imagine que da vez que você entrou houve um pequeno erro: Você foi recriado(a) do outro lado com sucesso, saiu com a mesma aparência/personalidade/saúde/etc. Porém na máquina de origem houve um problema e você não foi desintegrado. E aí? O que acontece com a sua consciência? Fica no original? No novo? Em lugar nenhum? Nos dois? Se considerarmos que fica nos dois estaríamos assumindo que existe algo imaterial conectando os dois corpos, então descarto essa possibilidade. Pela descrição do “experimento mental”, também não faz sentido pensar que ela ficaria “em lugar nenhum”, afinal a máquina deu certo várias vezes e seu corpo foi recriado com uma consciência. Se considerarmos que o escaneamento não te mata, e que a máquina não te desintegrou, então você permaneceu acordado(a) o tempo inteiro, e não faz sentido assumir que você perderia a consciência. Ou seja, basicamente a máquina te copiou. Fez um clone já adulto, com as mesmas memórias que você. Um novo indivíduo é criado achando que tudo deu certo e que foi teletransportado, e o original fica achando que o teletransporte falhou. Se os operadores da máquina vissem o erro e te falassem: Opa, deu um erro! Você não foi desintegrado(a). Mas não se preocupe! Você já foi recriado(a) do outro lado e está bem, por favor entre na máquina que te desintegramos e fica tudo certo”. Você entraria? Creio que não. Mas então, tem certeza que você entraria da primeira vez? Não é a mesma coisa que estaria acontecendo? Uma cópia sua seria criada e você seria simplesmente morto.

Feitas essas considerações, imagine agora que inventassem uma máquina que não usa outro material, mas transfere seus átomos por um cabo de alguma maneira para o outro lado e te reconstrói usando os mesmos átomos que te compunham anteriormente. Imagine porém que o átomo do seu pé pode parar na cabeça e vice-versa, mas ainda assim a sua estrutura física continua inalterada, e as pessoas que entram saem com as mesmas memórias/personlidade etc. Você entraria? Eu não sei. Parando para pensar, qual é a diferença desse caso para o anterior? O que garante que aquele seria realmente “eu” com a minha mesma consciência, e não apenas uma consciência recriada fielmente? Vamos imaginar então que ela funciona de forma mais segura: Os átomos do pé vão para o pé e os da cabeça para a cabeça para exatamente a mesma posição, recriando exatamente a mesma configuração anterior. Agora é mais seguro entrar? Eu não teria segurança. Será que o risco realmente diminui? Por que diminuiria? O que é nossa consciência afinal? Se ela for interrompida corremos o risco de nunca tê-la de volta? Eu só entraria em uma máquina de teletransporte em que eu pudesse estar consciente durante todo o processo. Uma máquina que funcionasse mais como um “portal” do que como uma máquina de recriação. Mas pensando bem, será que perder a consciência é algo tão “perigoso”? Afinal toda vez que dormimos perdemos a consciência. Como ter certeza de que ela é “recriada” a cada manhã? Que diferença faria se fosse? Basicamente diferença nenhuma. No final das contas “consciência” parece um conceito tão sutil, tão vago. Parece mais um artifício linguístico, quase como algo que na verdade não existe objetivamente. Bem, não sei mais aonde quero chegar com tudo isso então novamente deixo a questão em aberto.

Por Que Não Sou Teísta

Esse é um assunto que eu evitei um pouco porque ninguém gosta (pelo menos os religiosos), mas a religião é muito presente na sociedade e tem dogmas em todas as áreas, de forma que fica praticamente impossível uma pessoa escrever um blog com assuntos filosóficos e simplesmente deixar religião de lado. Sei que vão pensar “Ariel com isso de novo”, “pra que tentar converter os outros” etc. Eu não estou tentando converter ninguém, mas se estivesse já expliquei um dos motivos para isso (no texto sobre moralismo). Esse post, como todos os outros, é simplesmente um post para quem gosta de pensar. Além disso, é um blog com meus pensamentos, então não acho que faça sentido ficar selecionando o que eu vou colocar aqui com medo de não agradar alguém.

Bem, esse texto explica como me tornei ateu e como foi esse processo desde que eu acreditava em Deus até hoje. Acho que pode ser interessante para as pessoas que pensam muito nesse assunto (muitos buscam respostas para suas questões na religião, acho interessante verem o outro lado), e também para algumas pessoas, principalmente as muito religiosas, entenderem “como pode alguém não acreditar em Deus”.

No início eu acreditava em Deus, rezava, etc. Aos poucos eu fui observando o mundo e refletindo sobre ele e minha vida. Quando eu era muito pequeno eu pedia várias loucuras que, obviamente, não se realizavam (superpoderes por exemplo). Eu também pedia coisas idiotas. Se eu estivesse esperando alguém chegar, por exemplo, eu rezava “por favor, que o próximo carro seja dessa pessoa”, é claro que “funcionava” de vez em quando, mas na minoria das vezes.

Então eu comecei a observar as desgraças no mundo. E comecei a achar estranho as pessoas rezarem e pedirem coisas para Deus, se tão poucas se realizam. E o mais incrível é que, quando se realizam, as pessoas agradecem fervorosamente e usam isso como evidência de que Deus existe. Quando não se realizam as pessoas se consolam com frases tipo “tava na hora”, “Deus escreve certo por linhas tortas” etc. e logo esquecem o assunto. E assim muitas vezes o mero acaso é divinizado só porque beneficiou alguém.

Outra coisa estranha pra mim era o fato de uma pessoa nascer príncipe da Inglaterra e outra com fome e AIDS na Etiópia. Mas como sempre teve muita influência espírita na minha família isso foi “explicado” pelo “karma”. Mas depois eu continuei pensando, se Deus é bom, e criou o universo, como o mal pode sequer existir? Costumam responder “Ele criou o livre-arbítrio e o homem criou o mal”.

O mal é um conceito criado pelo homem que, de forma geral, define tudo que causa sofrimento. De acordo com o cristianismo no início não havia sofrimento. Porém, o mal, como conceito, já existia. Deus disse “não pegue da árvore do conhecimento do BEM E DO MAL, pois isso é ERRADO”. A partir daí ele conceituou o “mal”, definiu coisas que causam sofrimento e que são erradas, criando assim a possibilidade de sofrer. Se ele não tivesse criado nada disso, continuaríamos tendo livre-arbítrio mas nunca haveria sofrimento. Mesmo considerando só o sofrimento, foi Deus que o inventou e escolheu infligi-lo sobre o homem se ele o desobedecesse.

Resumindo, Deus, na sua definição mais comum, é um ser absoluto, infinitamente bom, onisciente, onipotente e criou um universo onde existe um “bem” e um “mal”, um “certo” e um “errado”. Em seguida ele criou um ser que pode agir livremente nesse universo. Ele deu certas características para esse ser e sabia, desde o princípio, que ele o desobedeceria. Depois Deus pune as pessoas por agirem de acordo com as características que ele mesmo as deu, e da maneira que ele já sabia que elas agiriam. Pensando nisso, a bondade de Deus se torna algo no mínimo questionável, senão paradoxal.

Ainda assim, alguns dizem que Deus nos deu o livre-arbítrio, e que não nos deu nenhuma “característica que nos inclinasse a fazer” nada, muito menos o mal. Isso é muito estranho pra mim, pois assim não acho que teriam feito o mal, mas não preciso nem discutir isso exatamente para responder a esse argumento. Suponhamos que Deus não nos tenha dado nenhum impulso de agir de nenhuma forma específica. Ainda assim ele criou a possibilidade de argirmos “errado”, sabendo que nós agiríamos, e fez com que a partir deste ato, o homem sofresse. Se eu der uma arma carregada na mão de uma criança e falar “presente, pode ficar, só não puxe o gatilho”, tudo bem? Isso não é errado? Seja porque somos naturalmente voltados para isso, por acaso, ou pelo motivo que for, o mal continua sendo conseqüência das ações de Deus.

Nessa época eu comecei a pensar em Deus como um ser frio e imparcial, que simplesmente criou o universo. Mas aí ele se reduziu a uma explicação para a origem do universo, e uma explicação pobre e ingênua, então logo me tornei agnóstico.

Digo pobre e ingênua porque é uma hipótese sem nenhum fundamento, uma tradição humana de criar deuses para explicar o que ele não consegue entender. O argumento de que Deus é a “causa primária” não me convence porque, como já disse Russell, se tudo necessita de uma causa, então Deus necessita de uma causa. Se pode haver algo que não necessita de causa, então esse algo pode ser tanto Deus quanto o próprio universo.

Essas foram as dúvidas e respostas que surgiram na minha cabeça quando eu ainda não era um total descrente e depois eu fui pesquisando mais. Mais tarde comecei a ouvir os argumentos de outras pessoas, mas nenhum chega perto de me convencer.

Um argumento comum é o de que algumas coisas no universo, como a vida, são complexas demais para terem surgido por acaso e, portanto, foram criadas por Deus. Mas essa conclusão é falaciosa, e essa falácia tem até nome, argumentum ad ignorantiam (argumento da ignorância), porque não importa o quão complexa alguma coisa seja, sua existência não implica que ela tenha sido criada por uma inteligência superior. Suponhamos uma tribo de índios em um local onde não chove há muito tempo. Um dia o Pajé reúne toda a tribo para dançar e rezar para o Deus da Chuva. Um dos índios, porém, não aparece. O Pajé então vai procurá-lo e pergunta porque ele não foi participar do ritual. O índio então responde “eu não acredito no Deus da Chuva”, e o Pajé responde com uma pergunta retórica para provar que o Deus da Chuva existe “então como você explica a chuva??? Ahá! Agora te peguei hein!”.

Isso é só pra mostrar que, em uma discussão entre X e Y, o fato de Y não ter uma explicação para alguma coisa não implica que a explicação de X sobre isso esteja correta. E isso vale para “Religião vs. Ciência”. Alguns acusam a ciência de arrogância, mas pelo menos ela é humilde o bastante para admitir que não sabe de alguma coisa, ao invés de simplesmente inventar respostas. No caso do índio, qualquer hipótese que ele usasse para explicar a chuva seria tão válida quanto a do Deus. A única coisa que as diferenciaria é que a hipótese do Deus é a resposta tradicional na maioria das culturas e já é bem aceita entre as pessoas. Esse é o “God of the gaps” (Deus dos “buracos”), que serve para preencher todos os buracos no conhecimento científico sem necessidade de pesquisa e evidências. Além do mais, seguindo a lógica do “design inteligente”, uma inteligência capaz de criar vida é algo muito complexo e, portanto, só pode ter sido criada por uma inteligência superior que, por sua vez, só pode ter sido criada por outra, e assim ad infinitum………

A partir dessa época eu já não acreditava em Deus, mas ainda tinha um certo lado espiritual. Durante todo esse tempo, porém, eu assistia muitos documentários sobre animais em canais como o Animal Planet, o que teve um papel bem importante nas minhas reflexões. Eu sempre gostei de animais e, depois de bastante tempo observando o comportamento deles, é difícil não se ver como simplesmente outro animal. Também é muito interessante como o comportamento deles é bem adaptado ao ambiente e às condições em que esse animal vive. Com o tempo eu fui enxergando explicações evolutivas para a maioria das emoções e comportamentos humanos, e paralelos no reino animal. Fica difícil ver a “justiça” e o conceito de “bem” e “mal” de uma forma absoluta, e características como “amor” e “altruísmo” de uma forma divina quando todas as evidências mostram que elas são meros instintos que aumentam as chances de sobrevivência e reprodução não só dos humanos, mas também de outras espécies.

É aí que muitas pessoas ficam sentimentais e param de levar a sério. Acho que muitos preferem nem pensar sobre isso. “Mas e o amor? é tão lindo! Eu não amo fulado só porque vai aumentar minhas chances de sobrevivência!”. Se você for teísta tente pelo menos uma vez não ser sentimental nos seus julgamentos. O amor, ou mais genericamente, a afeição, é um instinto que liga parentes, casais em espécies monogâmicas, ou amigos em espécies sociais. Por que você ama seus parentes mais próximos? Porque eles tem grande parte dos genes em comum com você. Mas é óbvio que isso não é consciente. Se nasce um indivíduo com o gene de proteger os familiares, e passa esse gene para a família, todos vão se proteger, aumentando suas chances de sobrevivência, tornando sua decendência mais numerosa do que a das outras variações, e dessa forma a presença desse gene se torna predominante na população após algumas gerações.

E é claro que isso não acontece só na família. Em grupos de morcegos vampiros, por exemplo, eles saem para se alimentar e precisam de um volume grande de sangue, porque dele eles só aproveitam alguns nutrientes. Se em uma noite um indivíduo não consegue sangue o suficiente, outros dão um pouco do sangue que eles conseguiram para ele. Esses morcegos que trocam sangue normalmente formam laços, e surgem grupos de morcegos que dividem o sangue que conseguiram entre si. Se houver algum que nunca dê sangue, ele não formará um grupo e estará em desvantagem.

Considerando que o que nos impulsiona a agir é uma “força interior” que surge involuntariamente (foco do post “Razão, emoção e motivação“), normalmente chamada “emoção” ou “instinto”, é difícil imaginar a existência de um mundo espiritual. Não acho que faça sentido um espírito ter instintos já que ele é algo imaterial que não morre nem se reproduz. Como disse no post mencionado, acho que o espírito ficaria apático sem estímulo para fazer nada. Foi aí que eu deixei de acreditar em espíritos.

Além do mais, pesquisando um pouco sobre o assunto logo se vê que o espiritualismo não se baseia em nada sólido. Se resumem a alguns relatos de acontecimentos que ninguém consegue explicar (mas que como já foi dito, não implicam que o espiritualismo esteja certo), e revelações suspeitas (como qualquer revelação).

Antes que pessoas que já passaram por experiências “sobrenatrais” se ofendam, saibam que eu não “duvido” de todos que contam esses relatos, não acho que todos estejam mentindo. Acho que muitos realmente acreditam no que estão falando, mas que tiram algumas conclusões sem ter base para isso. O ser humano também tem uma tendência a encontrar padrões em tudo o que experencia (pareidolia) e, dependendo de sua cultura, vai interpretar essa experiência de uma forma ou outra. Digo isso até porque “via” coisas quando eu era pequeno e, depois de algumas “visões”, chamava quase tudo de “fantasma”. Qualquer vulto, névoa ou sombra estranha. Como na minha família tem bastante influência espírita, e no mundo de uma forma geral a idéia de “fantasma” é bem famosa, essa explicação me satisfez. Mas entre culturas diferentes, uma mesma experiência pode ser para uma pessoa evidência a favor do hinduísmo e para outra do cristianismo. Uma pessoa pode dizer que viu o pai, que morreu não há muito tempo, enquanto a outra diz que viu um santo, ou até um extraterrestre (lendas e até religiões envolvendo ETs têm se tornado bastante populares nos EUA), quando todas viram a mesma coisa. Usarei a paralisia do sono para ilustrar a idéia. O que costumava ser “explicado” através de fantasmas, demônios, e outras entidades sobrenaturais dependendo da região, tem sido associado a seres extraterrestres recentemente nos EUA. Os relatos de encontros com demônios como succubi e alienígenas, são incrivelmente semelhantes em casos de paralisia do sono e polução noturna. Isso mostra que a interpretação que as pessoas dão para esses eventos é totalmente influenciada pela cultura em que essa pessoa vive.

Quanto mais alguém está imerso em um sistema de crenças, mais estará disposto a ver as coisas de uma forma, e mais vai tender a acreditar que tem experiências sobrenaturais. Isso já aconteceu algumas vezes em comunidades pequenas onde alguns relatos e acontecimentos estranhos foram levando as pessoas a entrar nessa “outra realidade”. Este fenômeno se chama “histeria coletiva”.

Com certeza há coisas que me intrigam, relatos na minha família de coisas realmente consideradas impossíveis pela ciência atualmente. Mas a total ausência de qualquer prova me mantém bastante cético. E também a resposta clássica “eu não preciso provar nada a ninguém”, mesmo quando desde 1964 há um prêmio de 1 milhão de dólares para o primeiro que conseguir provar que faz algo sobrenatural.

As pessoas só acreditam mesmo nessas coisas porque são agradáveis. A humanidade inventa respostas e acredita nelas porque elas são confortantes, enquanto a idéia de que a morte é o fim absoluto da consciência é muito assustadora para a maioria das pessoas (um dos motivos para haver tão poucos ateus). Muitos parecem ter a ilusão de que quanto mais agradável uma idéia for, mais é provável que ela seja verdade, o que não faz o menor sentido. A própria frase “Cada um acredita no que quer” mostra isso, como assim “acredita no que quer”!? Eu não consigo essa proeza. Eu posso até querer que algo seja verdade, mas não vou me iludir fingindo que é só porque eu quero. Eu pessoalmente até gostaria que houvesse vida após a morte, mas por mais que eu queira não consigo realmente “acreditar” sem nenhuma evidência. Quando uma pessoa “busca uma religião” isso também fica bem claro. Ela não está buscando realmente a explicação verdadeira para as questões dela, ela simplesmente está procurando uma resposta que a agrade. Tanto que ninguém se preocupa com evidências, basta ser uma resposta com que a pessoa se identifique e ela entra para a religião. Por que será que todas as religiões acabam com um final feliz pra você? Quem faz o bem se dá bem, quem faz o mal se dá mal (na concepção da de quem escolheu a religião, ou seja, a concepção de bem e mal com que ela concorda). Parece justo, podia ser verdade. Mas não há nenhum motivo para acreditar que realmente seja.

Minhas observações sobre as características do homem também reforçaram ainda mais meu ceticismo com relação a Deus, porque a grande maioria dos deuses possuem características totalmente animais. E isso não exclui a concepção mais comum de Deus no mundo cristão atual (infinitamente bom, onisciente, onipotente, onipresente, absoluto e perfeito). Bondade, amor, noção de justiça e valores morais, são instintos animais, a maioria presente também em outras espécies, principalmente grandes primatas. Se levarmos em conta a concepção de Deus do antigo testamento então, ele tem praticamente todos os sentimentos do homem: raiva, pena, compaixão, amor, ódio, ciúme, orgulho, até se arrepende e se decepciona, embora ele devesse saber todo o futuro. Todas essas são características animais que evoluiram ao longo de muito tempo até se tornarem como são. Isso mostra como Deus é uma figura personificada, criada à nossa imagem e semelhança.

Além disso, se sentimentos são involuntários, e não temos nenhum controle sobre sua aparição, então não faz sentido um ser absoluto como Deus ter sentimentos como “amor” e “compaixão”. Para quem concorda que alguém sem sentimentos ficaria totalmente apático, Deus faz menos sentido ainda, pois ele não tomaria atitude alguma e nunca teria criado o universo (é aí que os teístas que tinham concordado mudam de idéia e voltam atrás).

Outra coisa que me perturba também é que algumas características de Deus são cheias de paradoxos. Como a “onipotência” por exemplo. Deus pode criar uma pedra tão pesada que ele não possa levantar? Pode “poder” mais alguma coisa? Pode desenhar um triângulo com 2 ângulos internos obtusos? Ou a lógica limita a onipotência, que deixa de ser tão “oni” assim, ou “Deus transcende a lógica”, e é essa a resposta que a maioria das pessoas dão quando se fala no “problema do mal” (como pode existir mal se Deus é bom e onipotente) e outros paradoxos.

Sendo assim, mesmo com todos esses argumentos contra a existência de Deus, eu não poderia dizer que “provo que Deus não existe”. Eu posso provar através da lógica, mas se Deus é absoluto e está acima da lógica, então analisar Deus racionalmente é algo totalmente sem propósito. Dessa forma, por um tempo adotei o título de agnóstico. Porém, logo passei a achar que esse título não me definia bem, e encontrei alguns textos de Bertrand Russell com os quais me identifiquei muito.

“Como filósofo, se estivesse falando para um público puramente filosófico eu diria que tenho que me descrever como agnóstico, porque não acho que haja um argumento conclusivo pelo qual se possa provar que não há um Deus. No entanto, se eu quero passar a impressão correta ao homem ordinário na rua, acho que devo me descrever como ateu, porque, quando digo que não posso provar que não há um Deus, tenho que adicionar igualmente que não posso provar que não há deuses homéricos” – Bertrand Russell, Collected Papers, vol. 11, p. 91

“Se eu sugerir que entre a Terra e Marte existe um bule de chá chinês girando em torno do sol em uma órbita elíptica, ninguém seria capaz de provar o contrário, considerando que eu fui cuidadoso em adicionar que o bule é pequeno demais para ser detectado pelos nossos mais poderosos telescópios. Mas se eu continuasse e dissesse que, já que minha afirmação não pode ser provada falsa, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar disso, diriam que eu estou falando besteira. Se, porém, a existência de tal bule fosse afirmada em livros antigos, ensinada como verdade sagrada todo domingo, e inserida na mente das crianças na escola, hesitar em acreditar na sua existência seria um marco de excentricidade e tornaria o descrente qualificado para tratamento psicológico em uma era iluminada ou para a Inquisição no passado.”

Resumindo, atualmente eu acredito em Deus tanto quanto acredito que uma bola quadrada fluorescente de 7 toneladas vai se materializar e cair do lado do meu prédio daqui a 15 minutos. Acho que a palavra “Ateu” é a que descreve melhor esse nível de crença.

Razão, emoção e motivação


Imagine que você está num restaurante escolhendo o que vai comer no cardápio e de repente, magicamente, você perde todos seus sentimentos e se torna uma pessoa 100% racional. Você se torna um ser incapaz de ter medo, ficar triste ou feliz, sofrer ou sentir prazer. Você ainda tem seus sentidos, mas mesmo que você coma e sinta um gosto bom, ele não vai mais te agradar, não vai ser mais “bom” na sua concepção. Aliás, nada vai ser bom na sua concepção, já que nada te dá prazer. Se algo tocá-lo, você percebe, mas não há sentimento nem de prazer nem de sofrimento. Mesmo que você se machuque e sinta o que costumava chamar de dor, aquilo não vai mais te incomodar.

Nessas condições, o que você acha que faria?

Demorei um pouco para ter um esboço de resposta a esse questionamento. Na verdade não tenho uma até agora, só parcialmente. No início eu pensei: “Eu ia ficar olhando pra frente eternamente, sem estímulo para fazer nada, até que me levariam a um hospital, me colocariam no soro, mas nada disso ia me incomodar e eu continuaria apático até morrer”.

Porém, ouvindo outras opiniões eu passei a achar também plausível a suposição de que eu não iria tomar atitudes conscientes. Embora ainda tenda a achar que não faria nada absolutamente (o que é muito vago), atitudes conscientes eu realmente não acho que iria tomar. Afinal, o que motiva uma pessoa a fazer alguma coisa é sempre uma emoção, por mais distante que a satisfação desse sentimento esteja da atitude em si. E quando dizem que “as vezes escolhemos racionalmente a melhor opção mesmo estando com vontade de fazer outra coisa”, na verdade é só uma questão de preferência. Quando você estuda ao invés de jogar video-game por exemplo, você só faz isso porque quer passar de ano, quer ter melhores oportunidades de trabalho no futuro ou então por autoridade, para evitar punição, etc. Todas essas opções visam saciar um desejo (conforto, riqueza, aceitação social, etc.), que são mais fortes que a vontade de jogar video-game, que pode ser prazeroso momentaneamente, mas que pode trazer conseqüências negativas a longo prazo se você deixar de cumprir suas tarefas. Ou seja, a razão é simplesmente uma ferramenta usada alcançar objetivos totalmente emocionais.



As atitudes inconscientes eu acho mais difíceis de avaliar e ainda tenho dúvidas. Será que essa pessoa roeria unha por exemplo? Supondo que esse fosse um hábito dela, como é meu (algumas vezes eu só me toco que roí a unha quando machuco meu dedo hahah), talvez. Mas quão inconsciente é esse ato? Normalmente eu só faço essas coisas se estiver distraído. Será que eu estaria “distraído” se eu estivesse sem emoções, será que eu sequer pensaria em alguma coisa? Além do mais, muitas dessas manias se devem a ansiedade, nervosismo, etc.

Bom, a questão levanta muitas perguntas. Me aprofundar em qualquer uma delas mudaria muito o foco do post, além de que muitas são perguntas às quais talvez nunca tenhamos respostas. Não tenho argumentos conclusivos então deixo a questão em aberto para reflexão.

Determinismo e livre-arbítrio

John Wayne Gacy (1942 – 1994), também conhecido como “o palhaço assassino”, foi um serial killer americano condenado e executado pelo estupro e assassinato de 33 meninos e rapazes entre 1972 e sua prisão em 1978.

Como sabemos, John foi fruto da relação sexual entre um homem e uma mulher. Imaginemos, no entanto, que no dia dessa relação, após o encontro do espermatozóide e óvulo do casal, a vida que passou a se formar no útero da mulher foi a princípio sua, ao invés da de John. Note que ainda assim, o espermatozóide e o óvulo são os mesmos que deram origem a John, portanto, o material genético também será o mesmo. Os pais de John (que agora é “você”) continuariam vivendo a vida normal deles, ou seja, A mesma que eles viveram sendo pais do John de verdade. Desta forma, todas as ações deles seriam exatamente iguais, e o feto teria rigorosamente a mesma exposição a radiações, acesso a exatamente os mesmos nutrientes, TODAS as condições de gestação RIGOROSAMENTE IGUAIS. Como consequência disso, você terá exatamente a mesma formação do John de verdade e nascerá no mesmo dia, mesmo segundo, mesmo instante em que John, terá cara de John, cérebro de John, tudo de John. Sem motivos para alterar o curso de suas vidas, seus pais te criariam da mesma maneira que John, na mesma cidade, com os mesmos vizinhos, te colocariam na mesma escola, etc.

Nessas condições, você acha que algum dia mataria alguém?

Minha resposta: Sim.

Afinal perguntar isso é como se fosse perguntar “Se John tivesse vivido toda a sua vida exatamente da mesma forma e na mesma época que ele viveu até momentos antes de seu primeiro assassinato, ele mataria alguém?”. Isso aconteceu, e ele matou. Por que razão ele deixaria de matar? Nenhuma. Todas as “razões” que ele tinha para fazer qualquer coisa eram as mesmas, portanto ele faria exatamente a mesma coisa.

Claro que estou analisando a situação de uma perspectiva materialista/monista. Quando digo que “a vida que passou a se formar no útero da mulher foi a princípio sua“, isso fica aberto a interpretação. Quando eu falo que o material genético e as experiências de vida são iguais, para um materialista perde-se a distinção entre a “sua vida” e a “de John”. Isso pode parecer um dado confuso na formulação da pergunta e, de fato, não fica muito claro. Mas foi uma “vagueza” que preferi manter pois acho interessante que o leitor faça sua própria interpretação. É surpreendente o quanto pessoas a princípio não-materialistas acabam interpretando da mesma forma que as materialistas. É uma das várias situações que mostram que pessoas religiosas podem ser absolutamente racionais desde não percebam que o assunto envolve questões de fé.

Se as ações de uma pessoa são conseqüência apenas de características sobre as quais a pessoa não teve influência, então não existe livre arbítrio. Ninguém escolhe os pais, nem suas condições de gestação, nem a criação. No instante que uma pessoa nasce todas as suas atitudes serão conseqüência dessas condições iniciais e posteriormente das atitudes anteriores. Pensando assim, tudo está pré-determinado. Suas ações vão se basear em coisas que você não controla. Supondo que você tenha um filho, ele será conseqüência dessa cadeia de fatos, assim como o filho dele será (e você também é), e assim por diante.