Conferência Humanista do Leste Europeu

Fonte:  FotoStudio42
Fonte: FotoStudio42

Ano passado vim morar na Romênia e uma das formas de tentar me socializar e me integrar por aqui foi procurando me envolver com a comunidade secular-humanista local. Em Abril entrei como membro na ASUR (“Asociația Secular-Umanista din România”, acho que dispensa tradução) e uma das atividades em que participei foi a Humanist Eastern European Conference (Conferência Humanista do Leste Europeu). A conferência era focada no Leste Europeu, mas na prática era aberta e aceitava aplicações de qualquer indivíduo e reuniu membros de instituições humanistas de toda a Europa e até do Cáucaso, como o Azerbaijão. O evento foi muito interessante e me senti responsável por compartilhar minha experiência com a comunidade humanista Brasileira, de forma que tento contribuir aqui com meu resumo e impressões sobre a conferência. Continue reading “Conferência Humanista do Leste Europeu”

Seria o racionalismo um sistema de crenças?

O conhecimento e a verdade

Na história da epistemologia, uma definição tradicional de conhecimento foi a de crença verdadeira e justificada. Verdadeira. Sempre fui muito interessado pela busca dessa verdade. Quando criança, aceitava o que minha família me ensinava por autoridade (não que eles fossem autoritários, apenas no sentido filosófico de argumentum ab auctoritate), o que incluía muitas visões religiosas. Essa, porém, logo deixou de parecer uma postura coerente para mim. Figuras de autoridade diferentes tinham visões diferentes sobre a realidade, como eu poderia saber quem estava certo? Logo me interessei sobre a ciência e seus princípios de racionalismo e imparcialidade (sejam estes plenamente alcançáveis ou não). Continue reading “Seria o racionalismo um sistema de crenças?”

Por Que Não Sou Teísta

Esse é um assunto que eu evitei um pouco porque ninguém gosta (pelo menos os religiosos), mas a religião é muito presente na sociedade e tem dogmas em todas as áreas, de forma que fica praticamente impossível uma pessoa escrever um blog com assuntos filosóficos e simplesmente deixar religião de lado. Sei que vão pensar “Ariel com isso de novo”, “pra que tentar converter os outros” etc. Eu não estou tentando converter ninguém, mas se estivesse já expliquei um dos motivos para isso (no texto sobre moralismo). Esse post, como todos os outros, é simplesmente um post para quem gosta de pensar. Além disso, é um blog com meus pensamentos, então não acho que faça sentido ficar selecionando o que eu vou colocar aqui com medo de não agradar alguém.

Bem, esse texto explica como me tornei ateu e como foi esse processo desde que eu acreditava em Deus até hoje. Acho que pode ser interessante para as pessoas que pensam muito nesse assunto (muitos buscam respostas para suas questões na religião, acho interessante verem o outro lado), e também para algumas pessoas, principalmente as muito religiosas, entenderem “como pode alguém não acreditar em Deus”.

No início eu acreditava em Deus, rezava, etc. Aos poucos eu fui observando o mundo e refletindo sobre ele e minha vida. Quando eu era muito pequeno eu pedia várias loucuras que, obviamente, não se realizavam (superpoderes por exemplo). Eu também pedia coisas idiotas. Se eu estivesse esperando alguém chegar, por exemplo, eu rezava “por favor, que o próximo carro seja dessa pessoa”, é claro que “funcionava” de vez em quando, mas na minoria das vezes.

Então eu comecei a observar as desgraças no mundo. E comecei a achar estranho as pessoas rezarem e pedirem coisas para Deus, se tão poucas se realizam. E o mais incrível é que, quando se realizam, as pessoas agradecem fervorosamente e usam isso como evidência de que Deus existe. Quando não se realizam as pessoas se consolam com frases tipo “tava na hora”, “Deus escreve certo por linhas tortas” etc. e logo esquecem o assunto. E assim muitas vezes o mero acaso é divinizado só porque beneficiou alguém.

Outra coisa estranha pra mim era o fato de uma pessoa nascer príncipe da Inglaterra e outra com fome e AIDS na Etiópia. Mas como sempre teve muita influência espírita na minha família isso foi “explicado” pelo “karma”. Mas depois eu continuei pensando, se Deus é bom, e criou o universo, como o mal pode sequer existir? Costumam responder “Ele criou o livre-arbítrio e o homem criou o mal”.

O mal é um conceito criado pelo homem que, de forma geral, define tudo que causa sofrimento. De acordo com o cristianismo no início não havia sofrimento. Porém, o mal, como conceito, já existia. Deus disse “não pegue da árvore do conhecimento do BEM E DO MAL, pois isso é ERRADO”. A partir daí ele conceituou o “mal”, definiu coisas que causam sofrimento e que são erradas, criando assim a possibilidade de sofrer. Se ele não tivesse criado nada disso, continuaríamos tendo livre-arbítrio mas nunca haveria sofrimento. Mesmo considerando só o sofrimento, foi Deus que o inventou e escolheu infligi-lo sobre o homem se ele o desobedecesse.

Resumindo, Deus, na sua definição mais comum, é um ser absoluto, infinitamente bom, onisciente, onipotente e criou um universo onde existe um “bem” e um “mal”, um “certo” e um “errado”. Em seguida ele criou um ser que pode agir livremente nesse universo. Ele deu certas características para esse ser e sabia, desde o princípio, que ele o desobedeceria. Depois Deus pune as pessoas por agirem de acordo com as características que ele mesmo as deu, e da maneira que ele já sabia que elas agiriam. Pensando nisso, a bondade de Deus se torna algo no mínimo questionável, senão paradoxal.

Ainda assim, alguns dizem que Deus nos deu o livre-arbítrio, e que não nos deu nenhuma “característica que nos inclinasse a fazer” nada, muito menos o mal. Isso é muito estranho pra mim, pois assim não acho que teriam feito o mal, mas não preciso nem discutir isso exatamente para responder a esse argumento. Suponhamos que Deus não nos tenha dado nenhum impulso de agir de nenhuma forma específica. Ainda assim ele criou a possibilidade de argirmos “errado”, sabendo que nós agiríamos, e fez com que a partir deste ato, o homem sofresse. Se eu der uma arma carregada na mão de uma criança e falar “presente, pode ficar, só não puxe o gatilho”, tudo bem? Isso não é errado? Seja porque somos naturalmente voltados para isso, por acaso, ou pelo motivo que for, o mal continua sendo conseqüência das ações de Deus.

Nessa época eu comecei a pensar em Deus como um ser frio e imparcial, que simplesmente criou o universo. Mas aí ele se reduziu a uma explicação para a origem do universo, e uma explicação pobre e ingênua, então logo me tornei agnóstico.

Digo pobre e ingênua porque é uma hipótese sem nenhum fundamento, uma tradição humana de criar deuses para explicar o que ele não consegue entender. O argumento de que Deus é a “causa primária” não me convence porque, como já disse Russell, se tudo necessita de uma causa, então Deus necessita de uma causa. Se pode haver algo que não necessita de causa, então esse algo pode ser tanto Deus quanto o próprio universo.

Essas foram as dúvidas e respostas que surgiram na minha cabeça quando eu ainda não era um total descrente e depois eu fui pesquisando mais. Mais tarde comecei a ouvir os argumentos de outras pessoas, mas nenhum chega perto de me convencer.

Um argumento comum é o de que algumas coisas no universo, como a vida, são complexas demais para terem surgido por acaso e, portanto, foram criadas por Deus. Mas essa conclusão é falaciosa, e essa falácia tem até nome, argumentum ad ignorantiam (argumento da ignorância), porque não importa o quão complexa alguma coisa seja, sua existência não implica que ela tenha sido criada por uma inteligência superior. Suponhamos uma tribo de índios em um local onde não chove há muito tempo. Um dia o Pajé reúne toda a tribo para dançar e rezar para o Deus da Chuva. Um dos índios, porém, não aparece. O Pajé então vai procurá-lo e pergunta porque ele não foi participar do ritual. O índio então responde “eu não acredito no Deus da Chuva”, e o Pajé responde com uma pergunta retórica para provar que o Deus da Chuva existe “então como você explica a chuva??? Ahá! Agora te peguei hein!”.

Isso é só pra mostrar que, em uma discussão entre X e Y, o fato de Y não ter uma explicação para alguma coisa não implica que a explicação de X sobre isso esteja correta. E isso vale para “Religião vs. Ciência”. Alguns acusam a ciência de arrogância, mas pelo menos ela é humilde o bastante para admitir que não sabe de alguma coisa, ao invés de simplesmente inventar respostas. No caso do índio, qualquer hipótese que ele usasse para explicar a chuva seria tão válida quanto a do Deus. A única coisa que as diferenciaria é que a hipótese do Deus é a resposta tradicional na maioria das culturas e já é bem aceita entre as pessoas. Esse é o “God of the gaps” (Deus dos “buracos”), que serve para preencher todos os buracos no conhecimento científico sem necessidade de pesquisa e evidências. Além do mais, seguindo a lógica do “design inteligente”, uma inteligência capaz de criar vida é algo muito complexo e, portanto, só pode ter sido criada por uma inteligência superior que, por sua vez, só pode ter sido criada por outra, e assim ad infinitum………

A partir dessa época eu já não acreditava em Deus, mas ainda tinha um certo lado espiritual. Durante todo esse tempo, porém, eu assistia muitos documentários sobre animais em canais como o Animal Planet, o que teve um papel bem importante nas minhas reflexões. Eu sempre gostei de animais e, depois de bastante tempo observando o comportamento deles, é difícil não se ver como simplesmente outro animal. Também é muito interessante como o comportamento deles é bem adaptado ao ambiente e às condições em que esse animal vive. Com o tempo eu fui enxergando explicações evolutivas para a maioria das emoções e comportamentos humanos, e paralelos no reino animal. Fica difícil ver a “justiça” e o conceito de “bem” e “mal” de uma forma absoluta, e características como “amor” e “altruísmo” de uma forma divina quando todas as evidências mostram que elas são meros instintos que aumentam as chances de sobrevivência e reprodução não só dos humanos, mas também de outras espécies.

É aí que muitas pessoas ficam sentimentais e param de levar a sério. Acho que muitos preferem nem pensar sobre isso. “Mas e o amor? é tão lindo! Eu não amo fulado só porque vai aumentar minhas chances de sobrevivência!”. Se você for teísta tente pelo menos uma vez não ser sentimental nos seus julgamentos. O amor, ou mais genericamente, a afeição, é um instinto que liga parentes, casais em espécies monogâmicas, ou amigos em espécies sociais. Por que você ama seus parentes mais próximos? Porque eles tem grande parte dos genes em comum com você. Mas é óbvio que isso não é consciente. Se nasce um indivíduo com o gene de proteger os familiares, e passa esse gene para a família, todos vão se proteger, aumentando suas chances de sobrevivência, tornando sua decendência mais numerosa do que a das outras variações, e dessa forma a presença desse gene se torna predominante na população após algumas gerações.

E é claro que isso não acontece só na família. Em grupos de morcegos vampiros, por exemplo, eles saem para se alimentar e precisam de um volume grande de sangue, porque dele eles só aproveitam alguns nutrientes. Se em uma noite um indivíduo não consegue sangue o suficiente, outros dão um pouco do sangue que eles conseguiram para ele. Esses morcegos que trocam sangue normalmente formam laços, e surgem grupos de morcegos que dividem o sangue que conseguiram entre si. Se houver algum que nunca dê sangue, ele não formará um grupo e estará em desvantagem.

Considerando que o que nos impulsiona a agir é uma “força interior” que surge involuntariamente (foco do post “Razão, emoção e motivação“), normalmente chamada “emoção” ou “instinto”, é difícil imaginar a existência de um mundo espiritual. Não acho que faça sentido um espírito ter instintos já que ele é algo imaterial que não morre nem se reproduz. Como disse no post mencionado, acho que o espírito ficaria apático sem estímulo para fazer nada. Foi aí que eu deixei de acreditar em espíritos.

Além do mais, pesquisando um pouco sobre o assunto logo se vê que o espiritualismo não se baseia em nada sólido. Se resumem a alguns relatos de acontecimentos que ninguém consegue explicar (mas que como já foi dito, não implicam que o espiritualismo esteja certo), e revelações suspeitas (como qualquer revelação).

Antes que pessoas que já passaram por experiências “sobrenatrais” se ofendam, saibam que eu não “duvido” de todos que contam esses relatos, não acho que todos estejam mentindo. Acho que muitos realmente acreditam no que estão falando, mas que tiram algumas conclusões sem ter base para isso. O ser humano também tem uma tendência a encontrar padrões em tudo o que experencia (pareidolia) e, dependendo de sua cultura, vai interpretar essa experiência de uma forma ou outra. Digo isso até porque “via” coisas quando eu era pequeno e, depois de algumas “visões”, chamava quase tudo de “fantasma”. Qualquer vulto, névoa ou sombra estranha. Como na minha família tem bastante influência espírita, e no mundo de uma forma geral a idéia de “fantasma” é bem famosa, essa explicação me satisfez. Mas entre culturas diferentes, uma mesma experiência pode ser para uma pessoa evidência a favor do hinduísmo e para outra do cristianismo. Uma pessoa pode dizer que viu o pai, que morreu não há muito tempo, enquanto a outra diz que viu um santo, ou até um extraterrestre (lendas e até religiões envolvendo ETs têm se tornado bastante populares nos EUA), quando todas viram a mesma coisa. Usarei a paralisia do sono para ilustrar a idéia. O que costumava ser “explicado” através de fantasmas, demônios, e outras entidades sobrenaturais dependendo da região, tem sido associado a seres extraterrestres recentemente nos EUA. Os relatos de encontros com demônios como succubi e alienígenas, são incrivelmente semelhantes em casos de paralisia do sono e polução noturna. Isso mostra que a interpretação que as pessoas dão para esses eventos é totalmente influenciada pela cultura em que essa pessoa vive.

Quanto mais alguém está imerso em um sistema de crenças, mais estará disposto a ver as coisas de uma forma, e mais vai tender a acreditar que tem experiências sobrenaturais. Isso já aconteceu algumas vezes em comunidades pequenas onde alguns relatos e acontecimentos estranhos foram levando as pessoas a entrar nessa “outra realidade”. Este fenômeno se chama “histeria coletiva”.

Com certeza há coisas que me intrigam, relatos na minha família de coisas realmente consideradas impossíveis pela ciência atualmente. Mas a total ausência de qualquer prova me mantém bastante cético. E também a resposta clássica “eu não preciso provar nada a ninguém”, mesmo quando desde 1964 há um prêmio de 1 milhão de dólares para o primeiro que conseguir provar que faz algo sobrenatural.

As pessoas só acreditam mesmo nessas coisas porque são agradáveis. A humanidade inventa respostas e acredita nelas porque elas são confortantes, enquanto a idéia de que a morte é o fim absoluto da consciência é muito assustadora para a maioria das pessoas (um dos motivos para haver tão poucos ateus). Muitos parecem ter a ilusão de que quanto mais agradável uma idéia for, mais é provável que ela seja verdade, o que não faz o menor sentido. A própria frase “Cada um acredita no que quer” mostra isso, como assim “acredita no que quer”!? Eu não consigo essa proeza. Eu posso até querer que algo seja verdade, mas não vou me iludir fingindo que é só porque eu quero. Eu pessoalmente até gostaria que houvesse vida após a morte, mas por mais que eu queira não consigo realmente “acreditar” sem nenhuma evidência. Quando uma pessoa “busca uma religião” isso também fica bem claro. Ela não está buscando realmente a explicação verdadeira para as questões dela, ela simplesmente está procurando uma resposta que a agrade. Tanto que ninguém se preocupa com evidências, basta ser uma resposta com que a pessoa se identifique e ela entra para a religião. Por que será que todas as religiões acabam com um final feliz pra você? Quem faz o bem se dá bem, quem faz o mal se dá mal (na concepção da de quem escolheu a religião, ou seja, a concepção de bem e mal com que ela concorda). Parece justo, podia ser verdade. Mas não há nenhum motivo para acreditar que realmente seja.

Minhas observações sobre as características do homem também reforçaram ainda mais meu ceticismo com relação a Deus, porque a grande maioria dos deuses possuem características totalmente animais. E isso não exclui a concepção mais comum de Deus no mundo cristão atual (infinitamente bom, onisciente, onipotente, onipresente, absoluto e perfeito). Bondade, amor, noção de justiça e valores morais, são instintos animais, a maioria presente também em outras espécies, principalmente grandes primatas. Se levarmos em conta a concepção de Deus do antigo testamento então, ele tem praticamente todos os sentimentos do homem: raiva, pena, compaixão, amor, ódio, ciúme, orgulho, até se arrepende e se decepciona, embora ele devesse saber todo o futuro. Todas essas são características animais que evoluiram ao longo de muito tempo até se tornarem como são. Isso mostra como Deus é uma figura personificada, criada à nossa imagem e semelhança.

Além disso, se sentimentos são involuntários, e não temos nenhum controle sobre sua aparição, então não faz sentido um ser absoluto como Deus ter sentimentos como “amor” e “compaixão”. Para quem concorda que alguém sem sentimentos ficaria totalmente apático, Deus faz menos sentido ainda, pois ele não tomaria atitude alguma e nunca teria criado o universo (é aí que os teístas que tinham concordado mudam de idéia e voltam atrás).

Outra coisa que me perturba também é que algumas características de Deus são cheias de paradoxos. Como a “onipotência” por exemplo. Deus pode criar uma pedra tão pesada que ele não possa levantar? Pode “poder” mais alguma coisa? Pode desenhar um triângulo com 2 ângulos internos obtusos? Ou a lógica limita a onipotência, que deixa de ser tão “oni” assim, ou “Deus transcende a lógica”, e é essa a resposta que a maioria das pessoas dão quando se fala no “problema do mal” (como pode existir mal se Deus é bom e onipotente) e outros paradoxos.

Sendo assim, mesmo com todos esses argumentos contra a existência de Deus, eu não poderia dizer que “provo que Deus não existe”. Eu posso provar através da lógica, mas se Deus é absoluto e está acima da lógica, então analisar Deus racionalmente é algo totalmente sem propósito. Dessa forma, por um tempo adotei o título de agnóstico. Porém, logo passei a achar que esse título não me definia bem, e encontrei alguns textos de Bertrand Russell com os quais me identifiquei muito.

“Como filósofo, se estivesse falando para um público puramente filosófico eu diria que tenho que me descrever como agnóstico, porque não acho que haja um argumento conclusivo pelo qual se possa provar que não há um Deus. No entanto, se eu quero passar a impressão correta ao homem ordinário na rua, acho que devo me descrever como ateu, porque, quando digo que não posso provar que não há um Deus, tenho que adicionar igualmente que não posso provar que não há deuses homéricos” – Bertrand Russell, Collected Papers, vol. 11, p. 91

“Se eu sugerir que entre a Terra e Marte existe um bule de chá chinês girando em torno do sol em uma órbita elíptica, ninguém seria capaz de provar o contrário, considerando que eu fui cuidadoso em adicionar que o bule é pequeno demais para ser detectado pelos nossos mais poderosos telescópios. Mas se eu continuasse e dissesse que, já que minha afirmação não pode ser provada falsa, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar disso, diriam que eu estou falando besteira. Se, porém, a existência de tal bule fosse afirmada em livros antigos, ensinada como verdade sagrada todo domingo, e inserida na mente das crianças na escola, hesitar em acreditar na sua existência seria um marco de excentricidade e tornaria o descrente qualificado para tratamento psicológico em uma era iluminada ou para a Inquisição no passado.”

Resumindo, atualmente eu acredito em Deus tanto quanto acredito que uma bola quadrada fluorescente de 7 toneladas vai se materializar e cair do lado do meu prédio daqui a 15 minutos. Acho que a palavra “Ateu” é a que descreve melhor esse nível de crença.

Moralismo e Intolerância Religiosos

Ateus são freqüentemente acusados de arrogância e preconceito contra religiosos. Frases como “Cada um na sua”, “Qual é o problema de acreditar em Deus??”, “Religião é pessoal” são sempre usadas para defender a religião. Neste texto explico a causa da minha oposição a religiões, e como em alguns casos, a simples existência de pessoas religiosas é prejudicial à construção de uma sociedade justa e igualitária.

A pura e simples crença em deuses ou na imortalidade, é uma questão pessoal que a princípio não afeta a vida de outras pessoas. Na maioria dos casos, porém, essa crença acompanha outras mais complexas que podem envolver questões éticas, e gerar conflitos entre pessoas que não compartilham as mesmas crenças.

“I say quite deliberately that the Christian religion, as organized in its churches, has been and still is the principal enemy of moral progress in the world.” (“Eu digo deliberadamente que a religião Cristã, como organizada em suas igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso moral no mundo.”)
– Bertrand Russell, Why I Am Not a Christian and Other Essays on Religion and Related Subjects

No Brasil milhões de pessoas estão sujeitas a um único conjunto de leis. O Brasil se diz um estado laico, com liberdade religiosa, mas muitas dessas leis são influenciadas pelo cristianismo, ou seja, todas as outras religiões são obrigadas a seguir a ética cristã. Essa é a “liberdade religiosa” do “estado laico” brasileiro.

Se o aborto é errado na visão dos cristãos, não abortem. Se suicídio e eutanásia são errados na visão dos cristãos, não se matem. Se métodos contraceptivos são errados na concepção cristã, não os utilizem. Se uma certa prática sexual, homossexualidade, jogo, drogas, prostituição, ou qualquer outro comportamento é errado na visão cristã, que eles não pratiquem. Os cristãos têm a liberdade de seguir sua ética e tradições (garantida pelo estado), que Deus puna os que optarem por fazer qualquer uma dessas coisas. Não-cristãos não desfrutam dessa mesma liberdade.

As leis do estado deveriam proteger vítimas de criminosos, e defender os direitos humanos, não dizer o que uma pessoa deve ou não fazer com a própria vida se isso não causa o mal a ninguém. Essa atitude do estado é moralista e segue valores freqüentemente religiosos, com os quais nem todos são obrigados a concordar.

Os valores morais com base na tradição e dogmas religiosos são um problema universal. Nos EUA, sete médicos que faziam abortos legalmente já foram assassinados por grupos religiosos pró-vida radicais, além de vandalismo, bombardeio e incêncio de clínicas de aborto. Pessoas incapacitadas não têm o direito de terminar a próprioa vida. O progresso científico é atrasado por polêmicas que só existem por questões religiosas como no caso da pesquisa com células-tronco. Homossexuais não podem se unir legalmente, e em alguns locais são punidos até com execução. Sexo entre solteiros no Irã é punido com 100 chicotadas, e adultério com apedrejamento.

Quanto maior a quantidade de pessoas religiosas e intolerantes no mundo, mais influência tem o moralismo religioso, maior a influência da religião no estado, e mais injusto o mundo para os que não praticam essa religião. Um mundo com valores morais seculares e leis baseadas na liberdade e igualdade, em que cada cidadão tem o direito de fazer o que quiser de sua vida, desde que não impeça outros de exercer os mesmos direitos, seria justo tanto para religiosos quanto não religiosos.

Os religiosos poderiam continuar levando suas vidas com suas práticas religiosas sem serem incomodados com isso, e os não praticantes não seriam punidos pelos seus atos supostamente “imorais” ainda que sem vítimas. Além disso, outros fatores como a visão religiosa da vida, também podem levar a valores morais distorcidos, baseados em dogmas e superstições, sem nenhum fundamento científico, e qualquer lei baseada nesses valores estaria privilegiando um sistema de crenças em detrimento de outro, o que é injusto e contradiz os princípios de um estado laico.

Esse problema poderia ser resolvido com a diminuição desse pensamento egoísta e ditatorial por parte de muitos religiosos, que não satisfeitos em simplesmente viver de acordo com as suas tradições, querem impor seu estilo de vida a toda a sociedade. Porém, essa visão tirana é parte intrínseca de muitas religiões, principalmente as Abraãmicas (Judaísmo, Cristianismo, e Islamismo), assim como a convicção cega dos fiéis de que suas crenças pessoais infundadas são as corretas (todas as religiões). Sendo assim, a única forma desse problema ser solucionado é se os religiosos se dispuserem a reavaliar suas atitudes intolerantes e moralistas, ou se a religião deixar de existir.

Muitos dos que criticam a religião costumam falar sobre dízimo, igrejas evangélicas, e como a religião em alguns casos pode ser prejudicial para o prório praticante. Eu nem entro nessa questão, acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser com a sua vida. Não tenho nada contra as crenças das pessoas em si, mas sim as inúmeras conseqüências negativas que elas costumam trazer para todos os que não possuem crenças iguais.