Intelectual

Intelectual. Esse é um adjetivo positivo ou negativo? Perguntando assim tão diretamente achava difícil que alguém respondesse que é negativo. Mas surpreendentemente, a maioria das pessoas não responde que é positivo sem hesitar ou ao menos mencionar que pode ser positivo ou negativo.

Todos sabemos que os assuntos que predominam no Brasil são futebol, outros esportes (como UFC recentemente), novela, vida pessoal de celebridades, BBB etc. Quem ousa sair disso, é rapidamente taxado de “pseudo-intelectual”, “cult” ou algo do tipo (como esse post ilustra bem). Todos rótulos negativos que ridicularizam as preferências de quem desvia desse padrão. Mas qual é a diferença entre um “pseudo-intelectual” e uma pessoa com interesses intelectuais genuínos? Entendo que se auto-proclamar intelectual seja encarado como uma atitude pretensiosa, assim como se auto-proclamar “bonito” ou “inteligente”, e concordo que olhar com desdém para tudo que é popular é radical e arrogante. Além disso tenho que reconhecer que existem clichés que quase demandam ridicularização: uma série de “slacktivists” que fazem propaganda de esquerda no facebook e aparecem com máscara de Guy Fawkes em passeatas vagas “anti-corrupção/anti-capitalismo” que não têm nenhum objetivo muito concreto e acabam passando a imagem de ser pouco além de um evento social que reúne pessoas do mesmo estilo sob pretextos políticos. O resultado é que alguns acabam vendo-os como apenas mais uma categoria: existissem os “metaleiros”, os “playboys”, e os “hippies maconheiros barbudinhos estilo Che Guevara”.

População “indignada” protesta contra a ganância corporativa e a desigualdade social.

Mas isso é motivo suficiente para tratar qualquer demonstração de interesse intelectual com tanto ceticismo? Faz sentido deixar que as pessoas que reduzem a intelectualidade a um estilo, uma subcultura, “manchem” a palavra e acabarem tornando-a negativa? Consideremos a definição do Michaelis online:

in.te.lec.tu.aladj (lat intellectuale) Pertencente ou relativo à inteligência. s m+f 1 Pessoa dada ao estudo. 2 Pessoa de grande cultura literária.

Sério? Tem como esse adjetivo ser visto, de forma geral, como negativo? Não faz sentido. Uma sociedade que pensa assim não parece estar saudável.

Mas OK, ainda que a palavra tenha adquirido associações negativas, é claro que ela ainda não é completamente ruim. Afinal, se pessoas que se auto-proclamam intelectuais são acusadas de serem pretensiosas, então a intelectualidade até certo ponto ainda é vista como qualidade. Mas até que ponto? Se auto-proclamar intelectual é pretensão demais. Usar a palavra “intelectual” é pretensão demais. Postar em redes sociais ou demonstrar qualquer interesse por assuntos intelectuais é pretensão demais. Discutir com amigos sobre assuntos intelectuais é pretensão demais. Resumindo, qualquer demonstração visível de interesse intelectual é pretensiosa, arrogante e portanto condenável. A intelectualidade no final acaba sendo algo que no fundo a gente até entende que é bom, mas que deve ser mantido em segredo a qualquer custo. Como isso pode fazer sentido? Como a manifestação de algo que é por definição tão positivo pode ser tão desencorajada?

Por algum motivo parece ter se desenvolvido no Brasil esse grande cinismo com relação à intelectualidade, uma grande paranóia. Quando se fala em “intelectual” todos logo pensam em “pseudo-cults”, “intelectuaizinhos de esquerda”, etc. Eu mesmo até pouco tempo atrás não usava essa palavra por nada. Eu sempre me interessei sobre questões “filosóficas”, sempre gostei de questionar e discutir temas polêmicos e ideológicos, e sempre odiei frases da família “xxx não se discute”. Mas esse interesse sempre foi visto com muito cinismo pela maioria das pessoas com quem eu me relacionava. E eu nem acho que seja “um exemplo de intelectualidade”. Nunca li muitos livros (gostaria de ter lido mais) e consumo bastante entretenimento popular. Ainda assim, se eu e algum amigo mais aberto a essas questões estivéssemos discutindo, era comum que viesse um terceiro e dissesse “Ai, por que vocês estão discutindo isso?? Que papo chato! Vocês são malucos”. Devo admitir que careço de dotes sociais e sensibilidade para determinar em que contexto é apropriado ou não puxar esses assuntos, mas tenho convicção de que esse fator não é o principal responsável pela reação negativa. A rejeição desse tipo de tópico parece bastante generalizada e acabou até reprimindo esse meu lado e me fazendo evitar esse tipo de conversa. E eu não acho que seja o único.

Mas será que é assim em todo lugar? Minha namorada, que é da Romênia, diz que por lá, por exemplo, o cenário é diferente. Lá os intelectuais são heróis que libertaram o país de uma ditadura comunista que devastou a nação e a deixou em um estado do qual até hoje não se recuperou completamente. Mas lá os intelectuais “venceram” e quando o ocidente conta a vitoriosa história da democracia liberal eles se saem como heróis. Já aqui, parece haver uma tendência direitista de associar intelectuais a reacionários que lutavam contra a ditadura militar. Rebeldes que “se não fossem pelos militares poderiam ter instaurado uma ditadura comunista no Brasil”, e que hoje são associados a “defensores de um sistema falido que não deu certo em lugar nenhum”. Antes que pareça que eu estou tomando partido, eu não necessariamente penso assim. Só estou descrevendo uma hipótese do que talvez seja a imagem popular.

“Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a vida defendendo vagabundo. E o pior é que esses caras fazem a cabeça de muita gente” – Capitão Nascimento

Quando fiz intercâmbio na Suécia andava muito com franceses, alemães, islandeses etc e também nunca percebi de nenhum deles nenhuma reação negativa quando a conversa tomava rumos filosóficos/políticos/ideológicos. Já nos EUA a situação parece ser mais parecida com a do Brasil, pelo menos considerando séries como How I Met Your Mother e filmes críticos como God Bless America. Mas é claro que não se pode tirar conclusões a partir da simples experiência pessoal de um indivíduo, então chega de especulação.

Nesse episódio de How I Met Your Mother, sempre que o Ted faz algum comentário intelectual seus amigos fazem um barulho de pum.
Cena do filme God Bless America na qual Frank faz um discurso em resposta a um cínico colega de trabalho.

O fato é que, seja qual for o motivo, a sociedade brasileira como um todo é cínica e no geral vê a atitude intelectual como uma atitude esnobe e pedante. Um bom cidadão é “humilde” e “amigo do povo”, enquanto a sofisticação é elitista e indesejada. Alguns podem achar que essa hipótese contrasta com a anterior, já que o anti-elitismo é frequentemente associado à esquerda. Mas não é necessariamente uma contradição. Seria ingênuo esperar que a opinião popular seja sempre coerente. Em todo caso, o ponto é justamente que todos têm seus motivos para ver a intelectualidade com cinismo. Sim, é claro que a humildade é uma virtude. Mas quando essa mentalidade começa a se tornar radical, passa a ser totalmente avessa ao progresso. As pessoas falam muito de como é importante “investir em educação”, mas se esquecem de que a educação não é só na escola.

e.du.ca.ção sf (lat educatione1 Ato ou efeito de educar. 2 Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino. 3 Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação musicalprofissional etc. Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo. (…)

– Michaelis online  

A educação é um processo contínuo e acompanha todo indivíduo, desde seu nascimento até o fim de sua consciência. A escola é só uma ferramenta, e é responsável por apenas uma etapa desta educação. Uma população educada não é apenas uma população escolarizada. Uma população educada consiste de pessoas que aprenderam a se auto-educar, e que fazem bom uso deste aprendizado a longo de suas vidas, mesmo anos depois da escola, graduação, pós-graduação ou qualquer que seja o título.

Se você às vezes chega em casa cansado, depois de um difícil dia de trabalho, e quer desligar a cabeça e assistir novela, BBB ou futebol, tudo bem, não há motivo para vergonha. Entenda se fizerem críticas a essas formas de entretenimento sem encará-las como pessoais, e se alguém sugerir que alguma dessas atividades é per se suficiente para te definir como um ser inferior, julgue-o apenas como o tolo arrogante e simplista que ele é, e não como o representante oficial máximo da intelectualidade. Mas se você tiver dificuldade em se lembrar da última vez que viu um documentário interessante, um filme inteligente, leu um livro com conteúdo ou teve uma conversa além do superficial, então reflita: será que você realmente valoriza a educação? Se você assumidamente não valoriza, isso também é seu direito. Mas pelo menos deixe aqueles que valorizam se manifestarem em paz.

Moralismo e Intolerância Religiosos

Ateus são freqüentemente acusados de arrogância e preconceito contra religiosos. Frases como “Cada um na sua”, “Qual é o problema de acreditar em Deus??”, “Religião é pessoal” são sempre usadas para defender a religião. Neste texto explico a causa da minha oposição a religiões, e como em alguns casos, a simples existência de pessoas religiosas é prejudicial à construção de uma sociedade justa e igualitária.

A pura e simples crença em deuses ou na imortalidade, é uma questão pessoal que a princípio não afeta a vida de outras pessoas. Na maioria dos casos, porém, essa crença acompanha outras mais complexas que podem envolver questões éticas, e gerar conflitos entre pessoas que não compartilham as mesmas crenças.

“I say quite deliberately that the Christian religion, as organized in its churches, has been and still is the principal enemy of moral progress in the world.” (“Eu digo deliberadamente que a religião Cristã, como organizada em suas igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso moral no mundo.”)
– Bertrand Russell, Why I Am Not a Christian and Other Essays on Religion and Related Subjects

No Brasil milhões de pessoas estão sujeitas a um único conjunto de leis. O Brasil se diz um estado laico, com liberdade religiosa, mas muitas dessas leis são influenciadas pelo cristianismo, ou seja, todas as outras religiões são obrigadas a seguir a ética cristã. Essa é a “liberdade religiosa” do “estado laico” brasileiro.

Se o aborto é errado na visão dos cristãos, não abortem. Se suicídio e eutanásia são errados na visão dos cristãos, não se matem. Se métodos contraceptivos são errados na concepção cristã, não os utilizem. Se uma certa prática sexual, homossexualidade, jogo, drogas, prostituição, ou qualquer outro comportamento é errado na visão cristã, que eles não pratiquem. Os cristãos têm a liberdade de seguir sua ética e tradições (garantida pelo estado), que Deus puna os que optarem por fazer qualquer uma dessas coisas. Não-cristãos não desfrutam dessa mesma liberdade.

As leis do estado deveriam proteger vítimas de criminosos, e defender os direitos humanos, não dizer o que uma pessoa deve ou não fazer com a própria vida se isso não causa o mal a ninguém. Essa atitude do estado é moralista e segue valores freqüentemente religiosos, com os quais nem todos são obrigados a concordar.

Os valores morais com base na tradição e dogmas religiosos são um problema universal. Nos EUA, sete médicos que faziam abortos legalmente já foram assassinados por grupos religiosos pró-vida radicais, além de vandalismo, bombardeio e incêncio de clínicas de aborto. Pessoas incapacitadas não têm o direito de terminar a próprioa vida. O progresso científico é atrasado por polêmicas que só existem por questões religiosas como no caso da pesquisa com células-tronco. Homossexuais não podem se unir legalmente, e em alguns locais são punidos até com execução. Sexo entre solteiros no Irã é punido com 100 chicotadas, e adultério com apedrejamento.

Quanto maior a quantidade de pessoas religiosas e intolerantes no mundo, mais influência tem o moralismo religioso, maior a influência da religião no estado, e mais injusto o mundo para os que não praticam essa religião. Um mundo com valores morais seculares e leis baseadas na liberdade e igualdade, em que cada cidadão tem o direito de fazer o que quiser de sua vida, desde que não impeça outros de exercer os mesmos direitos, seria justo tanto para religiosos quanto não religiosos.

Os religiosos poderiam continuar levando suas vidas com suas práticas religiosas sem serem incomodados com isso, e os não praticantes não seriam punidos pelos seus atos supostamente “imorais” ainda que sem vítimas. Além disso, outros fatores como a visão religiosa da vida, também podem levar a valores morais distorcidos, baseados em dogmas e superstições, sem nenhum fundamento científico, e qualquer lei baseada nesses valores estaria privilegiando um sistema de crenças em detrimento de outro, o que é injusto e contradiz os princípios de um estado laico.

Esse problema poderia ser resolvido com a diminuição desse pensamento egoísta e ditatorial por parte de muitos religiosos, que não satisfeitos em simplesmente viver de acordo com as suas tradições, querem impor seu estilo de vida a toda a sociedade. Porém, essa visão tirana é parte intrínseca de muitas religiões, principalmente as Abraãmicas (Judaísmo, Cristianismo, e Islamismo), assim como a convicção cega dos fiéis de que suas crenças pessoais infundadas são as corretas (todas as religiões). Sendo assim, a única forma desse problema ser solucionado é se os religiosos se dispuserem a reavaliar suas atitudes intolerantes e moralistas, ou se a religião deixar de existir.

Muitos dos que criticam a religião costumam falar sobre dízimo, igrejas evangélicas, e como a religião em alguns casos pode ser prejudicial para o prório praticante. Eu nem entro nessa questão, acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser com a sua vida. Não tenho nada contra as crenças das pessoas em si, mas sim as inúmeras conseqüências negativas que elas costumam trazer para todos os que não possuem crenças iguais.