Funk é cultura? Os perigos do radicalismo relativista

ddaa8-vemmamaculturaEsse já é o segundo texto que escrevo cujo título segue essa estrutura. E acho possível que não seja o último. A razão disso é uma tendência relativamente comum que observo no ser humano de adotar uma perspectiva binária ao analisar certos problemas. No caso, o problema em questão envolve o relativismo e o elitismo. Como todo assunto polêmico, é sempre possível que alguém se sinta ofendido. Mas se a única forma de não ofender é não criticar, então sou forçado a me arriscar e fazer a crítica da forma mais construtiva possível. Continue reading “Funk é cultura? Os perigos do radicalismo relativista”

Se você não acredita em nada, por que não rouba ou se mata logo?

niilismo evolucionistaQuando se adota uma visão de mundo cética e racionalista (como a descrita em mais detalhe no texto “Seria o racionalismo um sistema de crenças?“), uma reação comum é a de nos perguntarem por que não roubar, matar, ou simplesmente nos suicidarmos já que a vida não faz sentido. Neste depoimento, tento mostrar alguns equívocos dessa pergunta e como pode ser possível dar algum sentido à vida fora da religião.

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Seria o racionalismo um sistema de crenças?

O conhecimento e a verdade

Na história da epistemologia, uma definição tradicional de conhecimento foi a de crença verdadeira e justificada. Verdadeira. Sempre fui muito interessado pela busca dessa verdade. Quando criança, aceitava o que minha família me ensinava por autoridade (não que eles fossem autoritários, apenas no sentido filosófico de argumentum ab auctoritate), o que incluía muitas visões religiosas. Essa, porém, logo deixou de parecer uma postura coerente para mim. Figuras de autoridade diferentes tinham visões diferentes sobre a realidade, como eu poderia saber quem estava certo? Logo me interessei sobre a ciência e seus princípios de racionalismo e imparcialidade (sejam estes plenamente alcançáveis ou não). Continue reading “Seria o racionalismo um sistema de crenças?”

Radicalismo liberal sex-positive e seus perigos para o feminismo

Já há bastante tempo me identifico com o termo “liberal”. Principalmente no que diz respeito a liberdades individuais (o sentido econômico da palavra foge do escopo deste texto). Apóio o direito dos gays, o direito ao aborto, e tendo a me opor ao conservadorismo na maioria dessas questões polêmicas. Logo que comecei a me interessar por questões feministas, passei a me identificar também com o termo e com as pessoas que declaram pertencer ao grupo. Conforme fui me aprofundando nesses temas, porém, fui notando uma série de contradições e discordâncias entre membros desses grupos. Na verdade, chego às vezes a pensar que eu talvez seja uma minoria dentro deles, principalmente no Brasil. Continue reading “Radicalismo liberal sex-positive e seus perigos para o feminismo”

Orgulho de ser homem, branco e hétero

waspMuitos reclamam que negros podem falar que “têm orgulho de serem negros” mas que os brancos não podem. Que uma banda chamada “Cidade Negra” cheia de negros é legal mas uma chamada “Cidade Branca” cheia de branquelos é racista. Ou que uma parada do orgulho gay é aceitável mas uma parada do “orgulho hétero” não é. Que a mídia se volta para as mulheres no dia delas e algumas ainda ganham flores e chocolate, mas que ninguém se lembra dos homens no dia deles. Realmente, eu diria que é verdade. No entanto as pessoas costumam criticar isso como sendo algo ilógico e hipócrita, um “double-standard” injusto. Será que é mesmo? Vamos pensar juntos. Quando esses movimentos começaram? Por que essas minorias passaram a ter essa atitude em primeiro lugar? Continue reading “Orgulho de ser homem, branco e hétero”

Proud of being a straight, white man

Straight white manMany people complain that black people can talk about “black pride” but that white people can’t. That a band called “Black City” is cool but one named “White City” with Caucasian members is racist. Or that a parade of gay pride is acceptable but one of straight pride is not. That the media turns to women on their day and some even receive flowers and chocolate, but that nobody remembers men on their day. Indeed, all of this seems to be true. However, many people usually criticize this as something illogical and hypocritical, an unfair double-standard. Is it really so? Let’s give it some thought. When did these movements begin? Why did minorities start to have this attitude in the first place?

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Educação política, ciência e participação cívica

Protesto com mais de 30 mil pessoas na Avenida Paulista

É um momento interessante da história brasileira. Sinto que eu e muitos estamos aprendendo várias coisas. Eu, por exemplo, me sinto um imbecil agora que vejo essa onda de posts pró-PEC-37 e percebo que não tenho argumento algum contra ou a favor e que simplesmente fui na onda da galera ao ser contra. Quando minha namorada, que é estrangeira, me perguntou sobre a PEC 37, eu tive a consciência de dizer que não sabia com detalhes, mas que dei um voto de confiança a algumas pessoas e me posicionei contra. Eu disse inclusive que, se eu for cobrar de mim mesmo um nível de conhecimento de um doutor em ciências políticas, nunca vou poder me envolver ou opinar em nada. Ela até brincou – você falando isso?? – porque na maioria das vezes eu evito falar antes de me informar bem a respeito. Talvez por isso eu sempre tenha me sentido mais confortável falando de ciência e das partes mais “pé-no-chão” da filosofia (lógica, epistemologia, etc). Esse cuidado em se posicionar por um lado é bom, mas por outro é preocupante. Afinal, se todos nos cobrarmos todo esse conhecimento, quando o povo vai se mobilizar como está se mobilizando agora? Nunca. Continue reading “Educação política, ciência e participação cívica”

Planejamento familiar

“Planejamento familiar”. Perguntando a que se refere essa expressão ouvi respostas de todo tipo. De “planejamento de como a família vai dividir e administrar o dinheiro” a “planejamentos para evitar brigas na família”. Claro que em teoria essa combinação de palavras poderia significar isso, mas a expressão se cristalizou no contexto da saúde como

“O planejamento de quando ter filhos, e o uso do controle de natalidade e outras técnicas para implementar esses planos”  – Wikipedia

Ou seja, basicamente o planejamento consciente do crescimento da família, evitando-se a gravidez acidental. A declaração universal dos direitos humanos adotada pelas Nações Unidas em 1948 lista entre os direitos básicos do ser humano o direito de implementar o planejamento familiar (direitos reprodutivos), e hoje em dia nos meios mais instruídos a prática é não só comum como encorajada.

Ainda assim, por algum motivo, como sugeri no início do texto, não se fala muito no assunto e alguns nem sabem bem o que é. E ainda, nas poucas vezes que se fala na implementação de políticas públicas que encorajem o planejamento familiar, o tema às vezes ainda é tratado como “polêmico”. Talvez um desses motivos seja a associação que se faz com o políticas públicas de controle de natalidade forçado. De fato, um certo receio é compreensível. Afinal, a história nos mostra episódios em que o controle forçado de natalidade foi usado para fins racistas e eugênicos, como na Alemanha nazista, onde foram adotadas políticas sociais que visavam o “aperfeiçoamento da raça Ariana”. As pessoas perseguidas eram identificadas como “vida indigna de vida”. Incluiam criminosos, degenerados, dissidentes, homossexuais e insanos, e eram selecionadas para remoção da cadeia de hereditariedade. Mais de 400.000 pessoas foram esterelizadas contra a vontade e 70.000 foram mortas durante a Ação T4, descrita como um programa de “eutanásia” (se essa citação da Wikipedia estiver correta).

Mas não é razoável deixar que episódios traumatizantes nos ceguem para sempre. A contracepção é um direito tanto quanto a liberdade de ter filhos, e não há por que defender um e condenar o outro. Essa aparente opinião popular me levou a me perguntar qual é, legalmente, a situação do planejamento familiar no Brasil. Do site da ABMP:

A Constituição Federal de 1988 inseriu o tema no capítulo VII – Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso. Este capítulo está no título VIII – Da Ordem Social.

Diz o art. 226, § 7º:

“Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo do Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.”

A lei 9.263/96 é explícita quanto ao controle demográfico:

Art. 1º O planejamento familiar é direito de todo cidadão, observado o disposto nesta Lei. 

Art. 2º Para fins desta Lei, entende-se planejamento familiar como o conjunto de ações de regulação da fecundidade que garanta direitos iguais de constituição, limitação ou aumento da prole pela mulher, pelo homem ou pelo casal. 

Parágrafo único – É proibida a utilização das ações a que se refere o caput para qualquer tipo de controle demográfico.

Ou seja, em conformidade com a declaração dos direitos humanos, o Brasil legalmente garante ao cidadão o direito ao planejamento familiar. Em teoria, preservativos feminino e masculinos (camisinha), pílula oral, minipílula, injetável mensal, injetável trimestral, dispositivo intrauterino (DIU), pílula anticoncepcional de emergência (mais conhecida como pílula do dia seguinte), diafragma e anéis medidores são todos oferecidos gratuitamente em toda a rede pública de saúde.

Com relação à vasectomia e laqueadura, o site oficial do ministério da saúde informa:

Vasectomia (SUS):O homem tem o direito à cirurgia para esterilização voluntária, contanto que seja maior de 25 anos ou com pelo menos dois filhos vivos e, caso seja casado, com o consentimento da esposa. 
Amparo legal: – Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996, Artigo 10º, Inciso I e Inciso I, Parágrafos 4º e 5º.
Ligadura de trompas (SUS):
A mulher tem o direito, em toda a rede do SUS e conveniados, a realizar cirurgia para esterilização quando desejar, contanto que seja maior de vinte e cinco anos de idade ou, pelo menos, com dois filhos vivos, e se em convivência conjugal, com o consentimento do marido. A esterilização também será possível quando houver risco de vida ou à saúde da mulher. Amparo legal: Lei nº 9.263, de 13 de novembro de 1996, Artigo 10, Parágrafos I e II.

Mas será que na prática esses direitos são realmente garantidos?

Uma pesquisa feita pelo IBPS (Instituto Brasileiro de Pesquisa Social) a pedido da CUFA (Central Única das Favelas) em 2008 mostra:

INFRA-ESTRUTURA DE SAÚDE: Existe Posto de Saúde em cerca de 60% das comunidades, mas não há médico de família em 65% delas, agentes de saúde em 41.4%, não há dentista em 51.4%. Quanto a programas de Saúde, não há planejamento familiar em 51% nem prevenção a doenças sexualmente transmissíveis (43.3%)

Mas o mais preocupante a meu ver é o fato de que, baseado no relato de conhecidos e outras fontes, mesmo nos poucos postos onde em teoria planejamento familiar, pedidos de laqueadura, método mais efetivo de controle de natalidade feminino, são negados cotidianamente, além de informarem incorretamente as pacientes sobre as leis que regulam a prática, dizendo que são “muito novas e saudáveis” e que a laqueadura para o caso delas não é permitida.

Mulheres de baixa renda têm pedidos de laqueadura negados

Surpreendentemente para mim, ainda há muitos que não entendem minha preocupação com esse problema. Acham que essa luta não é minha ou que é um tema sem relevância. Para mim parece óbvio que essa realidade agrava ainda mais os já profundos problemas sociais do país. É uma relação que eu sempre tracei de forma intuitiva, com base no que ao meu ver era senso comum, mas nesse texto vou tentar justamente trazer dados mais concretos para defender meu ponto. E creio que basta listar alguns fatos para deixar meu argumento subentendido:

Diante de uma taxa de natalidade de apenas 1,7% (comparável a países como França e Reino Unido), o Brasil caminha rapidamente para uma estagnação de sua população. O Ipea projeta 200 milhões de pessoas em 2020. Vinte anos mais tarde, em 2040, esse número crescerá em apenas 4 milhões, prevê o instituto ligado à Presidência da República. – Folha de São Paulo, 11/10/2012

Porém……

[De acordo com dados do Censo 2010 do IBGE], entre as mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, a taxa é de 3,09 filhos por mulher, enquanto as mais com ensino superior completo têm 1,14 filho em média. Entre estas últimas, a maternidade tem seu pico entre os 30 e 34 anos. Já entre os grupos de menos escolaridade, a concentração se dá entre os 20 e 24 anos. – BBC Brasil, 17/10/2012

e…

No estudo sobre a população que mora em favelas, palafitas ou outros assentamentos irregulares – classificados eufemisticamente como “aglomerados subnormais” -, o IBGE mostrou que, entre 2000 e 2010, o número de brasileiros que vivem nessas condições passou de 6,5 milhões para 11,4 milhões, um aumento de 75%. Nesse período, a população brasileira cresceu bem menos, 12,3%. Por isso, aumentou a proporção de brasileiros vivendo em habitações inadequadas, de 3,5% para 6% da população. – O Estado de São Paulo, 30/12/2011

É claro que acesso a planejamento familiar é só uma das várias coisas que essa parcela da população precisa. Mas essa é uma necessidade crítica pois não é somente sintomática como a bolsa família e afins. É uma necessidade que, se suprida, atacará o problema pela raiz (ou pelo menos por uma de suas raízes).

É muito comum o brasileiro dizer: “O Brasil é um país riquíssimo, o problema é essa roubalheira e a má distribuição”. É quase como se existisse um “mito do Brasil rico”. Não nego que a distrubuição seja horrível (entre as 20 piores do mundo em praticamente todas as métricas), mas essa afirmação simplesmente não é verdadeira. É uma frase que simplesmente virou um grande cliché mas que não tem fundamento. Tudo bem que o Brasil é uma das 7 maiores economias do mundo, mas isso é em valor absoluto e não tem muito significado. O Brasil é o 5º maior país do mundo em território e população, então isso não é muito mais do que o esperado. Já o PIB per capita do Brasil, com o qual faz muito mais sentido medir “riqueza”, mostra que somos um país pobre. Ou caso alguns discordem, talvez não “pobre”, mas com dificuldades financeiras graves o suficiente para impossibilitá-lo de ser um país plenamente desenvolvido com alta qualidade de vida. Estamos próximos da Sérvia, África do Sul, e da média mundial (que infelizmente é bem baixa). A população da Noruega, por exemplo, teria que quintuplicar para o PIB per capita chegar próximo ao do Brasil e ainda assim continuaria um pouco maior.

Tudo bem que existe muita corrupção e má administração aqui. Mas a falta de dinheiro e o excesso de gente também é um problema. É impossível dar boa educação, saúde e segurança para 190 milhões de pessoas com um orçamento de ~2.45 bi. Ou pelo menos até hoje nenhum país conseguiu essa proeza. Métricas como o IDH, que tentam medir a qualidade de vida, estão sempre fortemente relacionadas com o PIB per capita. Me parece um otimismo irrealista pensar que o Brasil vai inovar e quebrar esse paradigma que é quase uma necessidade lógica.

Ainda assim tocar no assunto parece um grande taboo, e os únicos políticos que tocam no assunto são militares homofóbicos simpatizantes da ditadura. Mas essa imagem tem que mudar. Essa associação não faz sentido. Defender o acesso a métodos anticoncepcionais não equivale a querer “eliminar os pobres e favelados” da sociedade. Só porque existem pessoas com esse discurso elitista e racista não quer dizer que a implementação de uma política de planejamento familiar mereça per se os mesmos adjetivos. Não nego que pobreza e favelização sejam problemas a ser tratados, mas isso está longe de ser uma afirmação radical e preconceituosa. Fazer essa equivalência entre a defesa do planejamento e visões elitistas de extrema direita é uma generalização injustificada, uma lógica falaciosa ad hominem de culpa por associação.

Outra possível razão para se evitar tanto esse tema pode ser a religiosa. Embora os procedimentos sejam legais, a Igreja Católica ainda é contra qualquer método anticoncepcional. Além disso, muitas das novas igrejas evangélicas também vêem os procedimentos com maus olhos. Dado o tamanho da população pertencente a essas denominações faz sentido que evitem colocar o assunto em pauta, em detrimento do desenvolvimento do país. Mas por mais que o estado brasileiro contradiga este fato em inúmeras atitudes, o país ainda é oficialmente laico, e essa influência religiosa em discussões de políticas públicas é algo a se lutar contra.

OK, alguns podem dizer, mas o que se pode fazer a respeito? Eu infelizmente não tenho uma sugestão do que nós como cidadãos podemos fazer, mas estou aberto a sugestões e sempre pensando nas minhas próprias. O que posso dizer aqui é só o que eu acho que o governo deveria estar fazendo. Aqui no Rio pelo menos há campanhas intensivas contra a dengue, cartazes e campanhas de conscientização sobre o crack, informativos na TV do ônibus sobre tuberculose etc. Ou seja, o governo se mobiliza e faz campanhas informativas utilizando a mídia para atingir a população. Então poderia muito bem haver algo análogo informando sobre o planejamento familiar. Informando sobre os métodos disponíveis, como funcionam, onde ter acesso a eles e quais são as leis corretas, além de uma fiscalização maior dos postos de saúde, para que as pessoas que buscarem tratamento não aceitem mentiras de médicos ou secretários mal intencionados. Além disso acho que essa seria uma política relevante o suficiente, devido à sua natureza não apenas sintomática, para merecer seu próprio fundo, ou uma posição bem definida na lista de prioridades do Ministério da Saúde, de forma que a divisão dos recursos não caísse nas mãos dos indivíduos que trabalham nos hospitais, cujo trabalho é cuidar do local e aplicar a medicina. Uma profissão muito nobre, sem dúvidas, mas que não os coloca na posição de definir políticas públicas.

Claro que isso sozinho não é suficiente pare “resolver os problemas do Brasil”. Mas acho importante focar em coisas específicas. Luta-se muito por coisas vagas como “o fim da corrupção” ou da “ganância corporativa” (vide passeatas contra a corrupção, “OcupyRio” e afins), mas sem um foco fica difícil sequer ter uma noção de falha ou sucesso. A movimentação perde um pouco o sentido. A corrupção é um problema super complexo, os governantes não vão chegar e dizer “OK, população, decidimos atender os seus pedidos”. Não estou dizendo que a movimentação seja completamente inválida, mas que as vezes é bom focar em coisas mais concretas e para mim o tema desse post é uma das que eu acho fundamentais.

Intelectual

Intelectual. Esse é um adjetivo positivo ou negativo? Perguntando assim tão diretamente achava difícil que alguém respondesse que é negativo. Mas surpreendentemente, a maioria das pessoas não responde que é positivo sem hesitar ou ao menos mencionar que pode ser positivo ou negativo.

Todos sabemos que os assuntos que predominam no Brasil são futebol, outros esportes (como UFC recentemente), novela, vida pessoal de celebridades, BBB etc. Quem ousa sair disso, é rapidamente taxado de “pseudo-intelectual”, “cult” ou algo do tipo (como esse post ilustra bem). Todos rótulos negativos que ridicularizam as preferências de quem desvia desse padrão. Mas qual é a diferença entre um “pseudo-intelectual” e uma pessoa com interesses intelectuais genuínos? Entendo que se auto-proclamar intelectual seja encarado como uma atitude pretensiosa, assim como se auto-proclamar “bonito” ou “inteligente”, e concordo que olhar com desdém para tudo que é popular é radical e arrogante. Além disso tenho que reconhecer que existem clichés que quase demandam ridicularização: uma série de “slacktivists” que fazem propaganda de esquerda no facebook e aparecem com máscara de Guy Fawkes em passeatas vagas “anti-corrupção/anti-capitalismo” que não têm nenhum objetivo muito concreto e acabam passando a imagem de ser pouco além de um evento social que reúne pessoas do mesmo estilo sob pretextos políticos. O resultado é que alguns acabam vendo-os como apenas mais uma categoria: existissem os “metaleiros”, os “playboys”, e os “hippies maconheiros barbudinhos estilo Che Guevara”.

População “indignada” protesta contra a ganância corporativa e a desigualdade social.

Mas isso é motivo suficiente para tratar qualquer demonstração de interesse intelectual com tanto ceticismo? Faz sentido deixar que as pessoas que reduzem a intelectualidade a um estilo, uma subcultura, “manchem” a palavra e acabarem tornando-a negativa? Consideremos a definição do Michaelis online:

in.te.lec.tu.aladj (lat intellectuale) Pertencente ou relativo à inteligência. s m+f 1 Pessoa dada ao estudo. 2 Pessoa de grande cultura literária.

Sério? Tem como esse adjetivo ser visto, de forma geral, como negativo? Não faz sentido. Uma sociedade que pensa assim não parece estar saudável.

Mas OK, ainda que a palavra tenha adquirido associações negativas, é claro que ela ainda não é completamente ruim. Afinal, se pessoas que se auto-proclamam intelectuais são acusadas de serem pretensiosas, então a intelectualidade até certo ponto ainda é vista como qualidade. Mas até que ponto? Se auto-proclamar intelectual é pretensão demais. Usar a palavra “intelectual” é pretensão demais. Postar em redes sociais ou demonstrar qualquer interesse por assuntos intelectuais é pretensão demais. Discutir com amigos sobre assuntos intelectuais é pretensão demais. Resumindo, qualquer demonstração visível de interesse intelectual é pretensiosa, arrogante e portanto condenável. A intelectualidade no final acaba sendo algo que no fundo a gente até entende que é bom, mas que deve ser mantido em segredo a qualquer custo. Como isso pode fazer sentido? Como a manifestação de algo que é por definição tão positivo pode ser tão desencorajada?

Por algum motivo parece ter se desenvolvido no Brasil esse grande cinismo com relação à intelectualidade, uma grande paranóia. Quando se fala em “intelectual” todos logo pensam em “pseudo-cults”, “intelectuaizinhos de esquerda”, etc. Eu mesmo até pouco tempo atrás não usava essa palavra por nada. Eu sempre me interessei sobre questões “filosóficas”, sempre gostei de questionar e discutir temas polêmicos e ideológicos, e sempre odiei frases da família “xxx não se discute”. Mas esse interesse sempre foi visto com muito cinismo pela maioria das pessoas com quem eu me relacionava. E eu nem acho que seja “um exemplo de intelectualidade”. Nunca li muitos livros (gostaria de ter lido mais) e consumo bastante entretenimento popular. Ainda assim, se eu e algum amigo mais aberto a essas questões estivéssemos discutindo, era comum que viesse um terceiro e dissesse “Ai, por que vocês estão discutindo isso?? Que papo chato! Vocês são malucos”. Devo admitir que careço de dotes sociais e sensibilidade para determinar em que contexto é apropriado ou não puxar esses assuntos, mas tenho convicção de que esse fator não é o principal responsável pela reação negativa. A rejeição desse tipo de tópico parece bastante generalizada e acabou até reprimindo esse meu lado e me fazendo evitar esse tipo de conversa. E eu não acho que seja o único.

Mas será que é assim em todo lugar? Minha namorada, que é da Romênia, diz que por lá, por exemplo, o cenário é diferente. Lá os intelectuais são heróis que libertaram o país de uma ditadura comunista que devastou a nação e a deixou em um estado do qual até hoje não se recuperou completamente. Mas lá os intelectuais “venceram” e quando o ocidente conta a vitoriosa história da democracia liberal eles se saem como heróis. Já aqui, parece haver uma tendência direitista de associar intelectuais a reacionários que lutavam contra a ditadura militar. Rebeldes que “se não fossem pelos militares poderiam ter instaurado uma ditadura comunista no Brasil”, e que hoje são associados a “defensores de um sistema falido que não deu certo em lugar nenhum”. Antes que pareça que eu estou tomando partido, eu não necessariamente penso assim. Só estou descrevendo uma hipótese do que talvez seja a imagem popular.

“Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a vida defendendo vagabundo. E o pior é que esses caras fazem a cabeça de muita gente” – Capitão Nascimento

Quando fiz intercâmbio na Suécia andava muito com franceses, alemães, islandeses etc e também nunca percebi de nenhum deles nenhuma reação negativa quando a conversa tomava rumos filosóficos/políticos/ideológicos. Já nos EUA a situação parece ser mais parecida com a do Brasil, pelo menos considerando séries como How I Met Your Mother e filmes críticos como God Bless America. Mas é claro que não se pode tirar conclusões a partir da simples experiência pessoal de um indivíduo, então chega de especulação.

Nesse episódio de How I Met Your Mother, sempre que o Ted faz algum comentário intelectual seus amigos fazem um barulho de pum.
Cena do filme God Bless America na qual Frank faz um discurso em resposta a um cínico colega de trabalho.

O fato é que, seja qual for o motivo, a sociedade brasileira como um todo é cínica e no geral vê a atitude intelectual como uma atitude esnobe e pedante. Um bom cidadão é “humilde” e “amigo do povo”, enquanto a sofisticação é elitista e indesejada. Alguns podem achar que essa hipótese contrasta com a anterior, já que o anti-elitismo é frequentemente associado à esquerda. Mas não é necessariamente uma contradição. Seria ingênuo esperar que a opinião popular seja sempre coerente. Em todo caso, o ponto é justamente que todos têm seus motivos para ver a intelectualidade com cinismo. Sim, é claro que a humildade é uma virtude. Mas quando essa mentalidade começa a se tornar radical, passa a ser totalmente avessa ao progresso. As pessoas falam muito de como é importante “investir em educação”, mas se esquecem de que a educação não é só na escola.

e.du.ca.ção sf (lat educatione1 Ato ou efeito de educar. 2 Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino. 3 Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação musicalprofissional etc. Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo. (…)

– Michaelis online  

A educação é um processo contínuo e acompanha todo indivíduo, desde seu nascimento até o fim de sua consciência. A escola é só uma ferramenta, e é responsável por apenas uma etapa desta educação. Uma população educada não é apenas uma população escolarizada. Uma população educada consiste de pessoas que aprenderam a se auto-educar, e que fazem bom uso deste aprendizado a longo de suas vidas, mesmo anos depois da escola, graduação, pós-graduação ou qualquer que seja o título.

Se você às vezes chega em casa cansado, depois de um difícil dia de trabalho, e quer desligar a cabeça e assistir novela, BBB ou futebol, tudo bem, não há motivo para vergonha. Entenda se fizerem críticas a essas formas de entretenimento sem encará-las como pessoais, e se alguém sugerir que alguma dessas atividades é per se suficiente para te definir como um ser inferior, julgue-o apenas como o tolo arrogante e simplista que ele é, e não como o representante oficial máximo da intelectualidade. Mas se você tiver dificuldade em se lembrar da última vez que viu um documentário interessante, um filme inteligente, leu um livro com conteúdo ou teve uma conversa além do superficial, então reflita: será que você realmente valoriza a educação? Se você assumidamente não valoriza, isso também é seu direito. Mas pelo menos deixe aqueles que valorizam se manifestarem em paz.